2006-03-31

56K red button

Manuela, naquela noite estava nervosa. Tinha, finalmente, tudo pronto. Foram meses e meses de preparação cuidada, meditação inquieta, mentalização consciente.

Em Vale de Vinhas, onde tinha aterrado, atarantada, há três anos resultado de um destacamento compulsivo pelo ministério da administração interna, Manuela produzia um quotidiano em que o momento mais entusiasmante era o abrir da porta da repartição e o rotineiro regar do ciclamen solitário da sua mesa de trabalho. A manhã era invariavelmente passada entre os bocejos dos despachos apressados aos papéis do dia anterior, ao por em dia com a Esmeralda do economato as tricas e mexericos lá da parvónia, ao demorado café da manhã e ao folhear das migalhas de “short-cakes” pelas notícias do dia espalhadas a cheiro de tinta no “Diário da Insular”. Cada dia era talhado em fatias carimbadas, uma a uma, por uma rotina dolorosa e banal que Manuela visualizava mentalmente á medida que as horas vagarosamente passavam.

Uma manha...
- “Sotôra! Dá licença?” – o ar aflito de Esmeralda, ao espreitar naquele dia à frincha da porta, trazia catástrofe eminente
- “Não me diga que a máquina do café se estragou outra vez!”
- “Sotôra! É do ministério!” – Esmeralda trazia um olhar gelado – “está aí um... é para... dizem que temos...”
- “Desembucha, mulher!”
... mal Esmeralda teve tempo de pronunciar meio “A”, foi interrompida pelo encontrão na porta atrás dela e pelo romper pela sala de um jovem vestido de preto-gótico que, a cada passo abanava uma juba negra e lânguida e que trazia uma pequena caixa cor de laranja debaixo do braço. Estendendo um formulário em triplicado na direcção de Manuela
- “Doutora... “ – voltando temporariamente o formulário para si e olhando-o com um ar néscio – “... Manuela Silva?”
- “...faz favor?!...” – disse-lhe, soltando um olhar doutoral, por cima das meias lunetas de aros dourados, enquanto olhava o formulário agora pousado na mesa de trabalho.
- “É só assinar” – quase arrotou o jovem, dando ares de quem não tinha a mínima ideia da tarefa que o trazia ali.
E Manuela, após uma pausa suficiente para ler e entender o conteúdo do formulário assinou, com um sorriso meio sarcástico, o formulário de recepção do sistema automático e auto-instalável de interligação á Rede Global.

Desde aquele dia que, durante a parte da tarde - quando dantes se tinham longas conversas ao sabor de um café no gabinete de Manuela – nunca mais ninguém punha os olhos em Manuela, que se fechava no gabinete, passando a dar despacho aos assuntos internos somente durante a manhã. Ninguém sabia o que ela fazia e, contudo, nas más línguas da secção falava-se que “aquela máquina” tinha destruído o bom ambiente e a camaradagem. Esmeralda, nos primeiros meses ainda tinha pensado que Manuela arrastava a asa a algum chefe de gabinete ligado à Rede Global mas, recentemente, pelo olhar vítreo que Manuela trazia ao fim do dia, ao sair do gabinete pensava “não! Uma mulher apaixonada não tem um olhar demoníaco!”. Até o Chico da portaria dizia entredentes que não percebia porque é que a doutora não o cumprimentava mais à chegada e á partida.

Manuela tinha, finalmente, tudo pronto.
Tinha conseguido, durante aqueles meses durante as tardes sem que ninguém a incomodasse, furar a Rede Global usando o velho modem de 56 Kapas - encontrado uma baça noite de solidão na caixa que o hediondo Alfonso lhe deixara na sua fuga para nunca mais a ver – fazer um “bypass” por fora do controlo apertado do Ministério e conectar-se às BBSs do “Núcleo Duro” de onde, metodicamente e com paciência de relojoeiro, reuniu, em downloads demorados mas convictos, o “pack do apocalipse” para por fim a tudo.

“Alfonso terá – onde ele estiver, no raio que o parta! – finalmente orgulho em mim!” – pensava ela, sorrindo de dentes cerrados, enquanto dava solenemente o último trago de “Cuvée Mazerac 2001” - que tinha conseguido que um tal “KlandestyN” lhe enviasse em embalagem postal disfarçada - e se dirigia calmamente para o pequeno ecran esverdeado do sistema automático e auto-instalável de interligação á Rede Global.
Olhou pela janela do gabinete para a noite fria lá fora e decidiu-se, olhando agora para a pequena filha de “checklist” do processo final:

conectar modem: clique! ... zcric...tiitiriirir.... ok!
Estabelecer contacto com BBS.Apocalypse: clique! ... connecting!... ok!
Pedir autorização de conecção aos “Silos Magnos”: user x ; pass y ; clique! ... ok!
Lançar macro de excel local para activar núcleos remotos de plutónio: clique!... ok!
Esperar sinal de frequência de resposta: ...
Lançar balísticos nucleares: clique... ok!

Olhou a barra de evolução que crescia pausadamente no pequeno ecran esverdeado ao som de pequeninos “bipes” e, agora imensamente relaxada, recostou-se para trás no cadeirão.


2006

minhota

bem... <cof-cof> ...é com muito orgulho que vos apresento a minha nova modelo fotográfica:


a minhota

2006-03-29

pópâpe

das coisas mais irritantes que pode acontecer a alguém na sociedade contemporânea é: "merda: esqueci-me de trazer a péne"


finalistas - 2006

2006-03-27

agoniza, cabrão! #03

a cor dos bocejos

não sei porquê, lembrei-me das manhãs de trovoada na escola primária. decorriam os anos pré 25 de Abril, numa terriola de arrabaldes de capital, no tempo em que os arrabaldes eram longe da capital e só havia uma sapataria como referência de comércio evoluido lá na terra. nessas manhãs de trovoada, a professora - beata solteirona de terço omnipresente sobre o casaco de malha preto - impunha-nos o silêncio e a reza como panaceia para a fúria dos deuses. durante minutos intermináveis rezávamos o terço entre os bocejos silenciosos e a luz de chumbo das cortinas de nylon paradas entre ombreiras grossas e frias de granito.

se eu naquele tempo tivesse internet acho que os meus pesadelos nas noites de trovoada eram transportados numa barcaça que rangia devagar na noite bem escura.

2004


2006

bolhinhas de papel

disse-lhe "ora faz de conta!" e perguntou-me "como é isso?". disse-lhe "ora! sempre fizeste de conta!... vens-me agora perguntar como é?!" encolheu os ombros e enrugou os cantos da boca para baixo como sempre o fizera "estás-me a acusar de que?!...". olhei-lhe os olhos como nunca o tinha feito "sim! é a única maneira de olhares para ti!" filtrou-me o olhar como sempre o fizera "que queres dizer?! que finjo? que sempre fingi?!". ameaçando fechar-lhe o porta-bagagens na cara "vá lá! ora chora lá agora!" soltando um sorriso patético "estás a bricar, não é?".
nem pensei "não há nada a perder" e fechei mesmo o porta-bagagens, retirei as luvas, enfiando-as na sacola e meti-a, num gesto bandoleiro, à tiracolo. atirei a chave do carro para bem longe, para o meio do mato e caminhei debaixo daquele sol abrasador, ficando cada vez mais calmo à medida que me afastava daquele velho carro, naquela estrada deserta.


2006

mich cu mamaliguta

o condutor tinha umas mãos que pareciam feitas de castanho velho. agarrava o volante com a delicadeza de um paquiderme e metia as mudanças aos sopapos entre rosnadelas guturais. visto do banco de trás, parecia um mostrengo gigantone que salpicava caspa dos ombros e constantemente, a cada exclamação incompreensível perante o caos do trânsito, se tentava acomodar no lugar minúsculo do condutor. aterrados, nós, no banco de trás, encaixados entre montanhas de sacos de plástico de supermercados desconhecidos e cheios de não-sei-o-quê, só queríamos chegar ao fim da viagem: só queriamos que nos depositasse naquela vilória de nome estranho e quase impronunciavel de onde tinhamos partido há um par de dias sem rumo definido.
bem nos tinha avisado, numa tentativa de inglês daqueles olhos esbugalhados, a senhora da cafetaria:
- "drrracul!... eeeevil!"


"dacia series" :') - sibiu, roménia - 2005

2006-03-24

tirita, Mirita!

- pá! só sei que deves andar doido! mais nada!
- achas? achas que, desde que me fechei em casa e só deixo entrar gente vestida de azul, que ando doido?
- ehem!...
- e que, desde que só como "palitos la reine" embebidos na sopinha de ligumes?...
- ehem!...
- e que, depois do sol se por, apago as luzes e fico a rezar a Heracles, pensando que dá vigor...
- porra!... cala-te, imbecil!
- <... silêncio pesado ...>
- vamos continuar o nosso passeio de mão dada pelo jardim do campo grande? ou ficas aí sentado, amuado?...


la morena 8-)

2006-03-21

a imagem que vale 1000 bytes

chego às 14h e recebo um mail a dizer algo como isto: "tenemos todo mal en la base de datos y necesitamos esto bien para continuarmos a trabajar". ok!... calma!... portanto, ... pensar!... andaste a lixar a porra da base de dados toda nestes últimos dois dias de stress em que pensavas que estavas a fazer tudo bem... boa! estúpido!... boa!... mas, porque porra isto deu mal?!... calma!... portanto!... vamos tentar recuperar isto a partir do ficheiro original!... é do dia 6, mas sempre é melhor que repor tudo de há dois dias... ok!... manda mail a sossegar as hostes!... vamos a isto!... e espaço em disco nesta porra desta máquina arcaica?... acho que há!... já eliminei todos os ficheiros temporários... bom! ... calma!... pá!... tens que ter isto logo ao fim da tarde pronto!... vai estar!... não vai haver azar!... e amanhã que vais de viagem e não poderás continuar a recuperação disto?!... hoje!... ok!. vamos a isto!... lança-se o processo de recuperação... ok... aguarda-se... aguarda-se!... *error!* ... porra! tinha que ser!... ainda há tempo!... que raio fez isto ficar sem espaço?!... não há azar!... aiai!... o tempo a passar!... bem!... parte-se o ficheiro de recuperação em dois!... vamos tentar de novo!... processa-se agora! ok... aguarda-se... aguarda-se!... *error!* ... merda!... pá!... tenho que me safar a horas!... que raio estará a causar isto?!... ah!.. será?!... pois!... só pode!... vá!... terceira vez!... ... ...

(entretanto, nada melhor que olhar para esta foto para acalmar)



. . . :')

senhor dos passos, desterro, lisboa - 2006

agoniza, cabrão! #02

chegava da praia, naqueles meses de verão húmido da praia das maçãs, ainda com a areia a coçar-me o entre-dedos das chinelas, por baixo do malmequer que me cobria quase o pé todo e o zunzum do silêncio das ruas, aquela hora de almoço, era um unísono que até fazia calar as moscas. o raspe-raspe do meu caminhar era quase uma surdina abafada pelo calor, aquela hora tentava sobrepor-se ao nevoeiro matinal, e eu adivinhava a visão que teria ao abordar a esquina que dava passagem para o corredor caiado e estreito sobranceiro à ravina onde todos os anos os pais alugavam por um mês a casota dos fundos do quintal da sra. azevedo:

maria, de farda de sopeira, sentada a abrir ervilhas para um alguidar verde fuorescente, e de ouvido colado ao rádio:

simplesmente maria

eram os tempos da radio-novela! eram os tempos em que se trasmitia sofrimento pelas ondas hertzianas sem imagem. sim!, porque a televisão de certeza que é transmitida por outra coisa qualquer que não ondas hertzianas: só as ondas hertzianas conseguem transmitir o sentimento firme e profundo.

2005/06/16


senhor dos passos, desterro, lisboa - 2006

e-operculum

vá lá!... não te preocupes!... se começares a sentir umas tonturas, um formigueiro na ponta dos polegares das mãos, um gradual alívio frio nas pernas, um agradável embaciar das ideias e das memórias, não te preocupes: concentra-te na minha voz grave e suave enquanto te falo com calma sobre coisas que já te foram importantes e que agora não te interessam nada de nada; tenta sentir o toque suave das minhas carícias no teu braço esquerdo desaparecerem a pouco e pouco, deixa-te levar pelo cada vez mais embaciado do teu olhar no sorriso que mantenho ao olhar-te com imensa ternura e, sobretudo, ignora o desconfortável do sangue que te ensopa a camisa e tenta sorrir para mim... meu cabrão!

3.14 ou 3,14

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lisboa - 2006

2006-03-17

fracção 1

hoje em dia, quando vou ao Porto, sinto-me um estranho. o frio húmido do inverno e das noites de verão entranha-se-me nos ossos, as ruas tornaram-se demasiado escuras para mim - habituado agora à luz de Lisboa, os sentidos proibidos já não me fazem sentido, os amigos que lá deixei há mais de uma dezena de anos, quando nos encontramos, falam só por frases começadas "lembras-te" ou "dantes" ou ainda "nunca" e tudo isto me deixa um sentimento pesado de quem aterrou repentinamente num passado bafiento em que o quotidiano sobrevive à força de tudo o que já não é e que toda uma esperança bacoca se deposita em tentativas falhadas de materializar cacos erráticos de uma memória em que tudo irremediavelmente congelou.
bem!... agora tenho mais em que pensar e vou mas é gozar o fim de semana.


sardoal - 2005

The Straight Story

- bom dia! sr. ventura!
- olá, bom dia!

- como está, sr. ventura?
- tudo bem, obrigado! martinha.

- bom dia! sr. ventura!
- bom diia!

- bom dia! sr. ventura!
- bom dia, marcelo!

- sr. ventura, viva! como está?
- muito bem, obrigado

- ora viva, caro ventura! tudo em ordem?!
- tudo em ordem, andrade!.. tudo em ordem...

- bom dia! sr. ventura!
- bom diiia...


já no décimo quinto andar do edifício da empresa para a qual, durante anos e anos, sempre tentou o seu melhor, numa volta de chave, fechou atrás de si a porta do escritório depois de entrar e, calmamente abriu a janela que dava para a avenida, respirou fundo, sorriu para si e atirou-se no vazio.


lisboa - 2002

2006-03-16

agoniza, cabrão! #01

sabino bino

sua existência gravitava aos tropeções á volta de um porta-chaves de pé de coelho. desde o dia em que saiu daquela porta, assumiu, ficou a pensar como se havia de livrar do seu eterno amor. "um pé de coelho fica sempre bem", pensou e logo - pumba - o fez: comprou numa loja de chineses um porta chaves com um pé de coelho onde pendurou as angústias e começou a rodopiar á volta dele até atingir o grau-zero da penumbra celeste. agora anda todo contentinho às voltinhas a ver as angustiinhas penduradas no coelhinho, tadinho

(2005/09/22)


lisboa - 2006

eremitério #04

a paisagem que zunia lá fora era um borrão disforme que não me fazia sentir nada. daquela janela salpicada de gotas empoeiradas, nada me parecia tão distante como o que tinha deixado para trás naquele dia, agora distante.

tinha decidido que não voltaria a Puerto Salado.

depois de termos entrado em Puerto Salado, depois das intermináveis filas de escanzelados mercedes azuis-bebé modelo anos setenta a atravessarem o caótico mercado que engolia a estrada à medida que nos aproximávamos, Paco tinha-me deixado, à minha insistência naquela sufocante tarde, no meio "del Paso" - no meio da algazarra de buzinadelas e charcos de água choca das últimas chuvadas - à paragem do único semáforo que ninguém obedece porque quem manda no transito são as vagarosas carroças puxadas por magricelas de tronco nu, os cães raquíticos que lambuzam côdeas em charcos fétidos e o nó cego de trânsito daquele cruzamento central. Agarrei na mochila, enlacei a correia da câmara no pulso e saltei, perante o pasmo de Paco, para a confusão, ficando no ele pendurado na porta batida atrás de mim e num “Paco! Recojeme en la bajada del río al final de la tarde!”

tinha – pensava eu - como objectivo, naquela tarde, encontrar-me com o contacto de um paquistanês, A. de nome, com quem tinha falado há um par de meses e que tinha um negócio de armas em Peshawar e que, na altura me disse que tinha ligações – na altura, a palavra “ligação” deixou-me receoso – com os negociantes de armamento com a FCL no nordeste da América do Sul. desde esse contacto que não tinha conseguido falar mais com ele, a não ser num telefonema apressado e quase ininteligível há cerca de duas semanas, a confirmar o encontro desta tarde.
Objectivo: segundo as indicações de A., “you go El Passo, you enter Sabina! you ask Sertorío! you very welcome! ... have to go!”
“Estou fodido!” – pensei eu na altura – e penso agora, depois de encarar “El Paso” e a sua confusão de lojas todas iguais e de gente a carregar sacos e de camiões de caixa aberta atafulhados de gente e de bicicletas ferrugentas encostadas às árvores e de motoretas fumarentas zigezageando ora nos passeios, ora na rua.

hoje, embasbacado e olhando a monotonia da paisagem que passava ao ritmo das junções dos carris, a minha camisa suada e pegada às costas só me fazem relembrar a correria ofegante que tivemos que fazer margem acima, refugiando-nos debaixo das palafitas nojentas onde os restos das águas de toda a espécie criavam uma lama que nos dificultava, a cada passo, a nossa aflição de fuga. recordo que ainda hesitei numa ânsia de querer registar o sucedido mas, ao puxão desesperado de Paco - “Vamonos, señor! Vamonos!” – vi que, da milícia acabada de chegar nos toyotas, o matraquear das rajadas de “automática” sobre as barcaças de Sertório eram demasiado para o que eu queria: registar, só, um carregamento de armas clandestino na margem do “Cacuate”.


xinzo de limia - 2006

2006-03-14

grease, please

sacando de mi tarjeta Vip que he comprado en www.eres-cojonudo.es, he conseguido entrar por la puerta del fondo de la calle escura donde los tíos guarros se quedabán escondido de Javi Torres
mi jaqueta era negra y de corte humilde, como me habia aconsejado Pepe en la noche anterior, mientras terminavamos la botella de cava bruto que nos habia dejado Pilar - "y que no se queden hasta muy tarde, torpes!" - saliendo con su majestuoso culo ajustado por las faldas negras. en el bolsillo, la "g-38 ex", en su potencia máxima de corte:: un aparatillo que nadie lo habia probado hasta la muerte de los milis de Torrejón:: en el cerebro, una porcion de "dopa+" que daria para matar a un curro de bestias gallego.
entré! nadie!
me quedé hasta hoy adentro de este puto salon que no tengo ni put'idea donde es. la única cosa que me doy cuenta es que, cuando hablo, me suenan ecos de mi voz como se de mi imagen fuera reflectida en una sala de espejos paralelos.
... además de esto, no tengo ni put'idea porque coño estoy hablando en castellano: seguramente, cuando me despierte, todo pasará a la normalidad!

... joder!... www.eres-cojonudo.es... que guay!!


costa de caparica - 2005

cheeseham

- "parrilhada..."

disse-lhe eu ao sentar-me à mesa do café, ao fim da tarde, em frente à praia quase vazia nestes dias precoces de primavera.

- "oh! pá... nem queiras saber!... estou na merda!... a natacha não"...

- "sim! parrilhada! imagina!"

continuava eu, enquanto fazia um sinal altivo e distraído ao empregado molenga encostado ao fundo do balcão com uma montra cheia de anódinos "doces-da-avó", eternos "molotoves" e banais "natas do céu"

- "pá!... dizia-te: a nata..." - interrompia o artur.

- olhe!... - virando-me agora para o artur - queres café?... hm?... não? queres, claro! ... são dois cafés!! ... pá! vim a pensar: é tão bimbo!... é dos pratos que melhor traduz o chico-espertismo tuga! tipo: "a gente faz aqui umas febras desta baratuchas, põe-se um entrecosto aos nacos para parecer coisa fina, dá-se um ar tropical ao conjunto com frutos exóticos daqueles mais baratos e coroa-se tudo com 3 camarões - daqueles que parecem tigre - por cima, e o cliente fica satisfeito e nem nota o preço!" ... pimbas! ... o tuga enche o olho com carnes de segunda e beleza tropical e ... tcha-tchaaam!!.... o máximo da gastronomia tuga: o camarão!!! ... não há casório onde não hajam manadas de boçais que se atirem a torres de camarão! ...eheheh!... ... mas, dizias?!...

- "...cha, pá . . .. nada...!"

- "estás com um ar abatido, pá! o cafezito vai-te fazer bem!"


lisboa - 2006

2006-03-13

etilírico

declamei:

. . . . poema:

13'15 - sai duas imperiais!
13'37 - sai mais duas!
14'03 - sai só mais uma!
...
15'04 - sai duas imperiais!
15'16 - sai mais duas imperiais!
...
16'09 - sai três imperiais!
16'22 - sai mais três imperiais!
...
17'14 - sai três imperiais!
17'29 - sai mais três imperiais!
17'37 - sai mais duas... não, três imperiais!
...
18'16 - sai quatro panachés!

. . . . . . . .

disse-me o capitain: Esta foto foi tirada a meio do poema. Plena de poesia :)
respondi-lhe: estavas lá?!?! :O
ao que ele contrapôs: Não. Mas percebo um pouco de poesia.


Março 2006

o muro mijado

lembras-te do teu primeiro beijo?
e do teu primeiro cigarro?

ah!...
... agora, pensa lá bem:

dos dois momentos, qual deles foi mais traumatizante para ti?
é que, se nunca fumaste, terás que viver para sempre agarrada à memória do teu primeiro beijo.


2006

2006-03-10

grayscale plan B

na última mudança de casa que fiz, depois de ter desencaixotado tudo, de ter deitado fora um monte de cassetes de video bolorentas, de empilhar sobre o armário do quarto de hóspedes os quadros a pendurar na parede,::
      tenho, definitivamente, de pendurá-los::
    de reviver memórias em cheiros e objectos esquecidos, de separar o inútil da minha vida e de guardar o que me parecia útil, sentei-me no sofá, abri a garrafa de vintage que tinha [re]descoberto no primeiro caixote aberto duas semanas antes e, como se de um altar se tratasse, montei um ritual de efeméride na mesa gasta agora no meio da sala: o naperon "da avó", beige e de bordado inglês que nunca mais usarei; a três quartos, o cálice de cristal burilado em cornucópias e herdado de uma tia velhota, esquecida há muito; ao meio, a garrafa sóbria e vintage do perfumado âmbar comprada há anos para comemorar algo, na altura muito mais importante, ao qual fugi; ao lado, o banal maço de marlboro e o isqueiro transparente e ordinário comprado numa noite gelada em copenhaga. só faltava mesmo era abrir as fivelas da velha pasta de couro negro que encontrei no último caixote e que me propus, em jeito de cerimonial de encerramento, abrir naquele momento solene, mesmo sem me recordar de onde ela tinha vindo::
      tenho coisas em casa das quais não sei - não me lembro - de onde vieram: ao fim de quase uma dezena de mudanças de casa, de companheira e de companheiros de sofá, devido à precariedade previsível de permanência em cada nova morada, vim a manter, sem abrir, caixotes e caixotes de tralhas impensáveis e a acumular caixotes desconhecidos que me surpreendem a cada nova chegada - "sim! é esse caixote": digo sempre aos homens das mudanças::
    enchi o cálice a três quatros, também; acendi um cigarro e dei uma passa profunda e calma; pousei-o, ponderado, no cinzeiro ao canto mais escuro da mesa e, após ter sacudido o que restava do pó na pasta, desengatei em dois gostosos claques as fivelas, abrindo para mim a língua de couro de lustro estalado pelos anos.
quase num fracasso pressenti-a vazia.
virei-a então para baixo, sacudindo-a com carinho, para que me cuspisse o que lá dentro tinha. do fundo bafiento daquela pasta, caiu-me na mesa, entre o cálice e a garrafa, um pequeno saco de oleado fino e cinzento e um papel amarelecido e dobrado em quatro que dizia, em letra quase abafada pelos anos, e que tive dificuldade em ler:

"
Samuel,
um dia precisarás deste p..... saco cinzento. tem capacidade para muito mais g..... do que tu pensas. quando o ench[eres] será a hora de mudar[es]. não penses que ele crescerá mais, pois não é m..... . terás que eliminar para sempre al..... para continuares a ........ [quase uma linha ilegível]
........... que queres.

sempre tua,
G.
"

tomei, sem sentimento nenhum de roubo, o saco para mim e mantive-o até hoje comigo.

digo-vos: tem funcionado [até hoje]!


lisboa - 2006

absolut dixit

- já imaginaste uma internet composta pelo que não foi dito?
- como, assim?
- ...




xinzo de limia - 2006

2006-03-08

plano vip #01

recorte pelo picotado, dobre e guarde na carteteia para ler no autocarro ou no metro, pela manhã:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .



Copos de plástico no chão

Na lama, as marcas das lagartas de um catterpiler

Ao longe, um homem de camisola vermelha e calções pretos corre

Há pessoas que cortam caminho pelo descampado

Passo por dois homens que falam do chelsea-barcelona

Na paragem do autocarro uma loira que dá vontade de comer sem conversa

Uma bicicleta sem selim acorrentada a um poste

No alcatrão, uma zebra cor de laranja

Cheguei :)
"

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


"sms10: Há quem escreva livros com estas coisas :’) “


sms-book #01, de anónimo - 08/03/2006



2005

Let's be famous in Tijuana #1

eu limpo, de vez em quando, os meus "cookies".

faz o mesmo!


porto - 2006

2006-03-07

picovida

tenta olhar a tua vida como um universo de variadas sessões de terapia ocupacional, e verás que ficas com a que sobra dessas sessões - a que poderás chamar realmente “Vida” - reduzida a algo tão insignificante e primário que te deixará de tal modo desnorteado, levando-te ao ponto de não a querer mais.

In “Gadanhar: como e porquê?”, edições Cianeto, 2006


Entroido gallego - 2006

2006-03-06

nanovida

um dia destes faço uma viagem de fim de semana na base do "caracoroismo". em cada cruzamento com mais de três placas indicando nomes de povoações como destino, atirarei uma moeda ao ar:

"cara" para a direita, "coroa" para a esquerda.

quando tiver mais tempo, farei o mesmo tipo de viagem, mas tentarei, ao fim de muitos quilómetros, voltar a casa com a mesma sorte.


Cph - 2005

2006-03-02

os outros e os outros

olhava, pela manhã, o espelho da casa de banho pública, mais para ver se tinha cagado bem do que se tinha remelas. fazia-se à estrada, a pé, todos os dias á mesma hora sem que soubesse onde iria. gritava, quando lhe dava para isso, em berros roucos o que lhe vinha à cabeça, assustando as crianças penduradas em mãos de mães apreensivas. bebia esmolas de cerveja aqui e ali e mijava-as onde o seu pudor ausente o deixava. dormia sestas pesadas em soleiras de portas escolhidas a dedo ébrio.

quando o viam, diziam para si mesmos, num equívoco:
- este gajo só pode ser feliz!

e com isto se sentiam mais felizes, um pouco.


entroido 2006

h_feed

levantei o auscultador com aquele pressentimento de que algo de trágico se estava a passar mesmo sem saber que outro lado da linha estava lá pendurado naquele momento.

a rasoira implacável daquela tarde tinha-me deixado sem pinga de alma para mais nada e não achava em mim ânimo para sequer mexer o olhar: tinhas partido sem um gatafunho de desdém em papel, sequer; tinha, num chofre metálico, perdido um amigo sem um adeus que necessitávamos; pasmei, entorpecido, ao ver a mão, inerte, como sinal de que já havia expirado um prazo.

sei que é estúpido assumi-lo: naquele momento só desejei ouvir de novo a tua voz.


2006

faxsimilé

quando tive que ir com o perito de seguros verificar o local do roubo, descobri, aqui há um par de semanas, uma poeirenta máquina de telex abandonada na jaula de rede, ao fundo do "armazém de embalagem".

chamou-me a atenção, naquele dia, a fita perfurada que pendia esquecida da ranhura da maquineta.

ontem voltei lá depois da hora de expediente e saciei a minha curiosidade: liguei a máquina à parede, ajeitei uma A4 nos carretos poeirentos e, com pequenos afagos, ajudei a máquina a engolir aquela fita que, em esgares mecânicos, se desfez num martelar desajeitado no papel:

"#09$$.ra que saibas -##.#& a minha vida tem uma moldura de cristal #&&&-"


laza - 2006

2006-03-01

farrapadas

a vida poderia ser um carnaval constante.

se fosse, no Entrudo celebrar-se-ia o quê?

:)



pulpo a la gallega <arroto> ... ahhhh :)