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Em Vale de Vinhas, onde tinha aterrado, atarantada, há três anos resultado de um destacamento compulsivo pelo ministério da administração interna, Manuela produzia um quotidiano em que o momento mais entusiasmante era o abrir da porta da repartição e o rotineiro regar do ciclamen solitário da sua mesa de trabalho. A manhã era invariavelmente passada entre os bocejos dos despachos apressados aos papéis do dia anterior, ao por em dia com a Esmeralda do economato as tricas e mexericos lá da parvónia, ao demorado café da manhã e ao folhear das migalhas de “short-cakes” pelas notícias do dia espalhadas a cheiro de tinta no “Diário da Insular”. Cada dia era talhado em fatias carimbadas, uma a uma, por uma rotina dolorosa e banal que Manuela visualizava mentalmente á medida que as horas vagarosamente passavam.
Uma manha...
- “Sotôra! Dá licença?” – o ar aflito de Esmeralda, ao espreitar naquele dia à frincha da porta, trazia catástrofe eminente
- “Não me diga que a máquina do café se estragou outra vez!”
- “Sotôra! É do ministério!” – Esmeralda trazia um olhar gelado – “está aí um... é para... dizem que temos...”
- “Desembucha, mulher!”
... mal Esmeralda teve tempo de pronunciar meio “A”, foi interrompida pelo encontrão na porta atrás dela e pelo romper pela sala de um jovem vestido de preto-gótico que, a cada passo abanava uma juba negra e lânguida e que trazia uma pequena caixa cor de laranja debaixo do braço. Estendendo um formulário em triplicado na direcção de Manuela
- “Doutora... “ – voltando temporariamente o formulário para si e olhando-o com um ar néscio – “... Manuela Silva?”
- “...faz favor?!...” – disse-lhe, soltando um olhar doutoral, por cima das meias lunetas de aros dourados, enquanto olhava o formulário agora pousado na mesa de trabalho.
- “É só assinar” – quase arrotou o jovem, dando ares de quem não tinha a mínima ideia da tarefa que o trazia ali.
E Manuela, após uma pausa suficiente para ler e entender o conteúdo do formulário assinou, com um sorriso meio sarcástico, o formulário de recepção do sistema automático e auto-instalável de interligação á Rede Global.
Desde aquele dia que, durante a parte da tarde - quando dantes se tinham longas conversas ao sabor de um café no gabinete de Manuela – nunca mais ninguém punha os olhos em Manuela, que se fechava no gabinete, passando a dar despacho aos assuntos internos somente durante a manhã. Ninguém sabia o que ela fazia e, contudo, nas más línguas da secção falava-se que “aquela máquina” tinha destruído o bom ambiente e a camaradagem. Esmeralda, nos primeiros meses ainda tinha pensado que Manuela arrastava a asa a algum chefe de gabinete ligado à Rede Global mas, recentemente, pelo olhar vítreo que Manuela trazia ao fim do dia, ao sair do gabinete pensava “não! Uma mulher apaixonada não tem um olhar demoníaco!”. Até o Chico da portaria dizia entredentes que não percebia porque é que a doutora não o cumprimentava mais à chegada e á partida.
Manuela tinha, finalmente, tudo pronto.
Tinha conseguido, durante aqueles meses durante as tardes sem que ninguém a incomodasse, furar a Rede Global usando o velho modem de 56 Kapas - encontrado uma baça noite de solidão na caixa que o hediondo Alfonso lhe deixara na sua fuga para nunca mais a ver – fazer um “bypass” por fora do controlo apertado do Ministério e conectar-se às BBSs do “Núcleo Duro” de onde, metodicamente e com paciência de relojoeiro, reuniu, em downloads demorados mas convictos, o “pack do apocalipse” para por fim a tudo.
“Alfonso terá – onde ele estiver, no raio que o parta! – finalmente orgulho em mim!” – pensava ela, sorrindo de dentes cerrados, enquanto dava solenemente o último trago de “Cuvée Mazerac 2001” - que tinha conseguido que um tal “KlandestyN” lhe enviasse em embalagem postal disfarçada - e se dirigia calmamente para o pequeno ecran esverdeado do sistema automático e auto-instalável de interligação á Rede Global.
Olhou pela janela do gabinete para a noite fria lá fora e decidiu-se, olhando agora para a pequena filha de “checklist” do processo final:
conectar modem: clique! ... zcric...tiitiriirir.... ok!
Estabelecer contacto com BBS.Apocalypse: clique! ... connecting!... ok!
Pedir autorização de conecção aos “Silos Magnos”: user x ; pass y ; clique! ... ok!
Lançar macro de excel local para activar núcleos remotos de plutónio: clique!... ok!
Esperar sinal de frequência de resposta: ...
Lançar balísticos nucleares: clique... ok!
Olhou a barra de evolução que crescia pausadamente no pequeno ecran esverdeado ao som de pequeninos “bipes” e, agora imensamente relaxada, recostou-se para trás no cadeirão.

2006



























