2006-02-24

X & Y

começo a dar moradas com a seguinte rubrica, além das tradicionais:

GPS:
Lon. 9,54474 W
Lat. 35,75208 N

os meus próximos cartões de visita que mandar fazer terão leds ligados a um micro-gps incorporado onde haverá um botão de reset que carregarei orgulhosamente com o sorriso da entrega do cartão a pessoas importantes.

[nota: não tentem apontar nenhum missil a estas coordenadas: são forjadas e não quero ser responsável por danos a terceiros]


2006

2006-02-21

a loja dos chineses #01

Hoje tive que ir assistir a uma coisa chamada “Road Show” de uma casa de software portuguesa.
Depois de ter assistido há muitos anos a várias estopadas destas, decidi que sim, que iria assistir a uma coisa destas. A horde de cinzentos engravatados e as elegâncias de botas de bico e de saia-casaco fez-me relembrar os onze anos que andei de gravata no dia a dia e a dificuldade que teria, hoje em dia, em voltar a apertar ao quotidiano o nó da gravata.
Aos primeiros acordes da palestra, tomei logo a pinta da coisa: “sinergias”, “conteúdos”, “schedule”, “drafting”, “retorno”; ok!... nada mudou desde há dez anos; diferenças: em vez de se usar o termo “auto-estradas da informação” – que era algo em voga na altura e que soa a ridículo hoje em dia – usam-se variantes da palavra “net”: intranet, extranet, Internet e mais “nets” conforme se deseje pintar o “páuerpóinte” a mostrar.
Depois de cabecear uma meia dúzia de vezes ao som monocórdico de banalidades conceptuais sobre sistemas de informação, finalmente a palavra mágica – esta também em inglês: “coffee break”, e a manada sonolenta saiu para bolecos e café e sumo de tanganja.

- Olhe lá – dizia-me, por baixo da sua inocência, o D., que nunca tinha estado numa coisa destas – não acha que este software é muito bom? Digo, com este conceito de informação disponível para todos e descentralização?
- oh D.! Acha?... repare que, mais de metade da assistência a esta palestra chegou mais de um quarto de hora atrasada. Isto, sem contar com a falta de respeito que é o chegar atrasado para com os que chegam a horas, para uma apresentação sobre soluções informáticas que requerem disciplina e método, que lhe parece?

- não! Vão vocês assistir à segunda parte desta estopada, que eu vou embora.

. . .

Ao dirigir-me para o carro... hmmm... BES Photo! ... e se for ver?

Sobre BESs-Photos e iniciativas dessas tenho a minha opinião muito própria: microcosmos intelectuais onde se dá a primazia à inovação feita por amiguinhos de amiguinhos, custe o que custar. Ou seja: “arranja-me um conceito interessante – nos meus moldes, se fazes favor – e ilustra-o com fotos que possamos justificar com o texto que escreveres e sejam feitas com câmaras fotográficas vintage e que sejam impressas em formatos enormes – ou estupidamente mínimos – com métodos de impressão que tenham nomes sonantes como “Ilfopress.ionize”, “Die-ultra.coated qualquer merda”, “Chromo.ultrazinoid coiso”, e a gente coloca-te nos píncaros e ganhamos todos”. Ou ainda: “sei lá! ... desconstroi... não!... deduz algo a partir do todo e logo teremos um conceito interessante para que te possamos justificar o subsídio ou a bolsa para que possas ter o apartamento em Amsterdão durante aqueles seis meses, desde que me tragas – ora deixa cá ver... seis paredes de 10 metros,.... ora... pá, trás 18 fotos que podemos imprimir bem grandes ... o quê? Da tua vivência nesses seis meses?... pá,... sim! Na boa!... desde que tenhas um conceito interessante para o teu ... projecto!”

E prontos!

Ao fim de cinco minutos e sete bocejos no BES Photo 2005 e já que tinha direito a isso, segundo estava escrito numas caixas de cartão com várias fotos dentro, vim embora e trouxe uma foto encaixilhada numa moldura de pinho. [ainda pensei que a foto era do José Luis Neto, que "limpou" o prémio de quinze mil euros «pela apropriação poderosa de documento histórico e que reenvia para imagens da realidade contemporânea, nomeadamente a violência silenciosa», mas bem que podia ser dele ]

Fui para casa e, nos semáforos olhava para a foto, silenciosa, coitadinha, sentada no banco do carro, ao meu lado.

...

Acho que, se tivessem colocado no cartaz do “Road Show” o conceito vencedor do José Luís Neto, as pessoas teriam chegado com o mesmo atraso de mais de quinze minutos.

Ena!




...

penso: inovação, uma porra! Nada de novo há naquela merda (mas isto sou eu a pensar, desculpem)



gosto do barulho que a tampa do meu caixote do lixo faz ao fechar:
reenvia-me para imagens da realidade contemporânea, nomeadamente a violência silenciosa


:)

2006-02-20

R.I

est tex te s par da palav pa qu n pos mago qu o l
:
po ist mes é q escr a mensa aci, pa q n pens q est s a econom a palav
:
ser q fo devi à mor de par d min consci
?


"lezíria" será o mesmo que "leisure" em inglês? - 2006

2006-02-15

a vida a 45% - Amadeu

Vale das Fragateiras, 2006
tida, anacronicamente, como a "Cidade do Linho"
população: 10500 almas (censo de 91); duas igrejas; uma C+S e quatro primárias (duas a encerrar para o ano); sede de concelho; um jornal local ("A Véspera" . mantido teimosamente por um anafado ancião ainda crente); um cine-teatro em ruínas desde o PREC e vários cafés (um deles chama-se "Central") ... pouco mais

Quem o visse pela ruas daquela parvónia, poderia dizer que Amadeu levava uma vida frugal:

enfrentava o a doce fragrância do eterno Old Spice da manhã no reflexo ainda embaciado do espelho de cantos moídos pela idade, e penteava a rotina do dia a dia com um orgulho cintilante de quem encara cada dia com a convicção de mais um movimento da única dama de um tabuleiro de xadrez numa descontraída sombra de tarde de verão no jardim.

pão que tem que ser de centeio e torrado. leite - de vaca identificada - com café: sempre.

com os bibelots da arca da entrada ajustados como sempre num gesto automático de conforto próprio, entre o decidido sacão ao ajustar o paletó e, antes de abrir a porta ao fresco da manhã, o quotidiano beijo repenicado no anel de finalista de gestão de empresas e, já na soleira de marmorite que dá para o quintaleco, o suspiro decidido de quem se lança numa hedónica missão de vida.

Amadeu dizia-se feliz!

carro q.b., casa q.b., mulher q.b., filho q.b.,

no "departamento" era tratado com deferência eclesiástica e assinava com parker de tinta permanente despachos e pedidos de deferimento; ao almoço, na mesa de sempre no "Choupana", comia sempre comida "como deve ser", pois as modernices, além de prejudiciais à saúde, eram americanices que um português decente deve evitar a todo o custo - hormonas e frituras em óleo dúbio não são alimento de gente culta e que se quer chefe de família respeitável - "É necessário que o manter da forma física seja algo natural, Adérito! para manter a saúde intelectual!" - receitava sempre, com ar doutoral, perante a vénia respeitosa do empregado, antes do ajeitar da cadeira.

Dizia-se agnóstico mas beijava e anuia às beatas aos domingos entre o adro da igreja e o bacalhauzinho sagrado; admirava Mahler e Debussy mas tinha patéticos intrépidos de "Dire Straits" e "AC/DC" em recatos de pantufas cinzentas a horas tardias; lia e pregava Eça e, no entanto, mantinha pastas e pastas absurdas de manuscritos psicadélico-lascivos de uma amiga alemã, ex-hippie, que conhecera uma vez numa conferência sobre a estratégia do F.M.I. no terceiro-mundo - ou coisa que o valha- e com quem mantinha visitas regulares á sua actual bio-produção de rabanetes em Odemira.

Amadeu dizia-se feliz!


"55%" - 2005

2006-02-14

2 + 2

     = 4 (... tem dias)


2004

2006-02-13

a lâmpada


2006

2006-02-10

in_a_box

dez minutos a olhar para esta caixa e a alma não salta cá para fora


2006

2006-02-08

flat panel

[new message]
já pensei em comprar um roupão de setim escuro com monograma e por-lhe um lenço de cor ousada a espreitar pelo bolso junto à lapela e passar a andar sempre com ele vestido em casa, a tilintar os cubos de gelo num copo de whisky na mão, mas faltam-me as empregadas de farda à moda antiga a preceito a quem possa apalpar o cu, pigarreando piropos brejeiros, ao cruzar-me com elas
[send]


porto - 2006

2006-02-06

f.a.: sessão I

nunca tinha percebido como era possível fazer boas fotografias e sorrir ao mesmo tempo.
teve em conta oráculos obscuros, leu as folhas de chá sob pontes milenares, semeou ao vento pétalas secas de gerânios em falésias inóspitas, queimou vagarosamente mil velas e tudo sem resultados que se pudessem dizer convincentes.

pululou sites de fotografia, distribuiu beijos, abraços, estrelas. favoritou, adorou, amou. emailou, chatou.

... e nada.

decidiu, por fim, dar atenção ao papelucho que mantinha há semanas naquele pratinho da mesa do hall de entrada lá de casa que dizia “fotógrafos anónimos – cura garantida!”.

... passou a sorrir de prazer perante todas as fotografias que fazia.



porto - 2006

nota: clique na foto para a ver sem ser em modo "redutor"

2006-02-03

sangue do teu sangue

"é tão fácil adorar-te, meu filhadaputa!!"

e, espetando-lhe com isto nas ventas, deixava para trás, num estrondo de porta, aquele quarto lúgubre da pensão ordinária onde tinham, numa mixórdia de lençóis suados, trocado fluidos durante aquela temporada natalícia de 99.

não se viram mais!

e nem sentira mais falta dela, nem nada do encarado no quotidiano lha fazia relembrar, nem as palavras nem sequer os cheiros lhe soavam a memórias

mais!...

deixara uma fotografia dela, propositadamente na cómoda, virada para a cabeceira da cama para adormecer embalado no rancor que lhe mantinha


havana - 2005

o modelo B34-a/06

bem te dizia para que não ficasses á minha espera naquela noite, quando te liguei da cabina telefónica onde me tinha abrigado do temporal.


depois de ter sido arrastado para fora do barracão de lusalite à força de murro e pontapé dos três gorilas - ou seriam quatro? - naquela noite que não me esquecerei, só a pouco e pouco recobrei as ideias quando comecei a perceber, contra o alvorecer, a silhueta em semicilindro deitado do "bunker" onde me tinha enfiado naquele fim de tarde, sem saber bem porquê. sempre insisti, perante as pessoas, que nunca tive sorte ao jogo - e ainda hoje o mantenho - mas, à custa de marguerittas, shótes e do ar do mar naquela tarde na Fonte da Telha, fui docemente arrastado por aquela tropa, no meio de sorrisos anestesiados e alarvidades ébrias, para numa "noite a partir". só comecei a ficar confuso quando um dos monstros, o de calções largueirões pelos joelhos, balbuciou "as gajas vão no clio" - para mim, uma "noite a partir" incluiria sempre gajas, ora! - mas deixei-me sacudir por palmadões no ombro para o bmw platinado do Quimzé.
o antro, que não passava de uma porta luminosa na noite, cheirava a mijo misturado com charuto que até enjoava e, ao fundo daquele corredor - sim, era como se fosse um túnel escuro onde só pairavam duas luzes: a da entrada e a da mesa, ao fundo - a mesa de jogo. fiz-me despercebido e acentuei o meu olhar vítreo quando me apontaram uma cadeira vazia, mas não resultou: quando dei por mim, já tinham passado várias "mãos" de poker pela frente e tinha um monte de euros a abarrotar-me o bolso das Levi's, quando, no meio do embaciado dos meus pensamentos, me recordei de ti: do teu sorriso quente, de como pronunciavas a palavra "amor" com aquele cantar baiano, do teu olhar doce:

- "malta. tenho que bazar! a Edinha deve estar lixada comigo!"

a galhofa estacou e o pivete a mijo fez-me, repentinamente, um nó asqueroso na garganta, quase provocando um vómito.

- "as gajas onde estão?"
- "q'esta merda? meu! agora que xulaste a malta é que vais bazar?" - atirou o Quinzé de um sorriso assustador

- "tenho que ir. não vês que"...

[não! não é por preguiça de encurtar este texto: a verdade é que, na minha vida, o tempo desde que me começaram a zupar até que fui cuspido porta fora daquele barracão ficará para sempre esquecido num pequeno tumor de neurónios apodrecidos numa zona qualquer do meu cérebro]

só passado uma meia hora é que consegui levantar-me, trepando as dores que me moíam o corpo e finalmente, sob aquela chuvada, caminhar chapinhando poças de lama no lusco-fusco daquele descampado até a esta cabina telefónica onde aproveitei para me abrigar da molha.

encharcado até ás cuecas, pondo duas moedas pela ranhura do telefone e, sem forças para me segurar em pé, deixei-me desfalecer só me lembrando do que me apetecia dizer-te:

"Edinha!...

foda-se! gosto de ti pra caraças!...

é que... sou boçal, eu sei, mas o coração sobe-me às goelas com facilidade"


2006

2006-02-01

o fenómeno palmeta

sempre que passo pelo número 37 da calçada de santa justina, ali à baixa, há um cheiro a mofo que sai daquela pequena janela de cave que me faz lembrar as tardes quentes de verão, quando não tinhamos nada que fazer e perguntávamos incessantemente "que fazemos hoje, mãe?", ao que recebiámos invariavelmente, do meio dos novelos de lã e do zigezaguear da tricotadora, um automático "tiram macacos do nariz, meninos!"


aveiro - 2004

channel nº5b

[quem me conhece sabe que] nunca me lembro do que sonho.
no entanto, acho que há um "canal" [hoje, depois do duche, enquanto espremia uma borbulha na aba da narina esquerda, em frente ao espelho meio embaciado, meditei sobre o assunto] que estabelece uma ligação entre o mundo etéreo dos sonhos e o mundo real dos pelos da barba no lavatório:

a música!

quase todos os dias, ao acordar, dou por mim a cantarolar mentalmente uma música [que não tem necessáriamente a ver com o meu gosto pessoal: aliás, a maior parte das vezes são músicas que considero bimbas ou horríveis] sem saber porque raio acordo com essa música carimbada nos neurónios :: só pode ser o tal "canal"!

hoje acordei a cantarolar o "Walk On By" [uma das pérolas compostas por Burt Bacharach]

. . . <momento de silêncio> . . .

e, note-se: não era um "Walk On By" qualquer!! era a versão cantada pela Dionne Warwick ... *glup!*

. . . <outro momento de silêncio> . . .

não sossegarei enquanto não descobrir o descodificador deste "canal", de modo a conseguir desvendar os sonhos que geram estas músicas!

. . . <ainda mais um momento de silêncio> . . .


sardoal - 2006