Hoje tive que ir assistir a uma coisa chamada “Road Show” de uma casa de software portuguesa.
Depois de ter assistido há muitos anos a várias estopadas destas, decidi que sim, que iria assistir a uma coisa destas. A horde de cinzentos engravatados e as elegâncias de botas de bico e de saia-casaco fez-me relembrar os onze anos que andei de gravata no dia a dia e a dificuldade que teria, hoje em dia, em voltar a apertar ao quotidiano o nó da gravata.
Aos primeiros acordes da palestra, tomei logo a pinta da coisa: “sinergias”, “conteúdos”, “schedule”, “drafting”, “retorno”; ok!... nada mudou desde há dez anos; diferenças: em vez de se usar o termo “auto-estradas da informação” – que era algo em voga na altura e que soa a ridículo hoje em dia – usam-se variantes da palavra “net”: intranet, extranet, Internet e mais “nets” conforme se deseje pintar o “páuerpóinte” a mostrar.
Depois de cabecear uma meia dúzia de vezes ao som monocórdico de banalidades conceptuais sobre sistemas de informação, finalmente a palavra mágica – esta também em inglês: “coffee break”, e a manada sonolenta saiu para bolecos e café e sumo de tanganja.
- Olhe lá – dizia-me, por baixo da sua inocência, o D., que nunca tinha estado numa coisa destas – não acha que este software é muito bom? Digo, com este conceito de informação disponível para todos e descentralização?
- oh D.! Acha?... repare que, mais de metade da assistência a esta palestra chegou mais de um quarto de hora atrasada. Isto, sem contar com a falta de respeito que é o chegar atrasado para com os que chegam a horas, para uma apresentação sobre soluções informáticas que requerem disciplina e método, que lhe parece?
- não! Vão vocês assistir à segunda parte desta estopada, que eu vou embora.
. . .
Ao dirigir-me para o carro... hmmm... BES Photo! ... e se for ver?
Sobre BESs-Photos e iniciativas dessas tenho a minha opinião muito própria: microcosmos intelectuais onde se dá a primazia à inovação feita por amiguinhos de amiguinhos, custe o que custar. Ou seja: “arranja-me um conceito interessante – nos meus moldes, se fazes favor – e ilustra-o com fotos que possamos justificar com o texto que escreveres e sejam feitas com câmaras fotográficas vintage e que sejam impressas em formatos enormes – ou estupidamente mínimos – com métodos de impressão que tenham nomes sonantes como “Ilfopress.ionize”, “Die-ultra.coated qualquer merda”, “Chromo.ultrazinoid coiso”, e a gente coloca-te nos píncaros e ganhamos todos”. Ou ainda: “sei lá! ... desconstroi... não!... deduz algo a partir do todo e logo teremos um conceito interessante para que te possamos justificar o subsídio ou a bolsa para que possas ter o apartamento em Amsterdão durante aqueles seis meses, desde que me tragas – ora deixa cá ver... seis paredes de 10 metros,.... ora... pá, trás 18 fotos que podemos imprimir bem grandes ... o quê? Da tua vivência nesses seis meses?... pá,... sim! Na boa!... desde que tenhas um conceito interessante para o teu ... projecto!”
E prontos!
Ao fim de cinco minutos e sete bocejos no BES Photo 2005 e já que tinha direito a isso, segundo estava escrito numas caixas de cartão com várias fotos dentro, vim embora e trouxe uma foto encaixilhada numa moldura de pinho. [ainda pensei que a foto era do José Luis Neto, que "limpou" o prémio de quinze mil euros «pela apropriação poderosa de documento histórico e que reenvia para imagens da realidade contemporânea, nomeadamente a violência silenciosa», mas bem que podia ser dele ]
Fui para casa e, nos semáforos olhava para a foto, silenciosa, coitadinha, sentada no banco do carro, ao meu lado.
...
Acho que, se tivessem colocado no cartaz do “Road Show” o conceito vencedor do José Luís Neto, as pessoas teriam chegado com o mesmo atraso de mais de quinze minutos.
Ena!
...
penso: inovação, uma porra! Nada de novo há naquela merda (mas isto sou eu a pensar, desculpem)
gosto do barulho que a tampa do meu caixote do lixo faz ao fechar:
reenvia-me para imagens da realidade contemporânea, nomeadamente a violência silenciosa:)