Há tempos, numa viagem que fiz à república da geórgia, encontrei numa gaveta de um hotel de segunda categoria onde estive duas noites hospedado, um envelope com uma folha amarelecida dentro. Estava manuscrita em alfabeto georgiano e guardei-a.
Com a cumplicidade de uma amiga de Tbilisi, ao fim de uns meses obtive a tradução:
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num local de coordenadas desconhecidas e não referido em mapas nem em fotografias de satélite e – diz-se – cravado numa planície de estepe parda da Sibéria, resiste ao longo dos anos um edifício gigantesco que cresce para baixo do solo em camadas de betão, tubos e cabos. Fala-se que foi, a determinado momento histórico da guerra fria, uma ultra-secreta concessão da antiga união soviética a imposições dos estados unidos num gorado contrato diabólico de controlo mundial.
No que resta deste complexo absurdo, segundo se diz, há, hoje em dia, uma série de frascos enormes, de vidro cristalino, que são mantidos por um batalhão de devotas mulheres esqueléticas, gelidamente obedientes que, de bata cinzenta abotoada até à pose arrogante, cumprem turnos ao segundo, mudam líquidos com carinho mecânico, vigilam corredores de penumbra silenciosa, trocam olhares inanimados: tudo para manter o legado.
cada frasco contem, em suspensão controlada e em vida suspensa, um cérebro que pertencera a um cientista de topo que recebia o salário ao abrigo do programa internacional V.I.D.A. (*) entretanto extinto.
A ideia inicial de manter estes cérebros activos era a de desenvolver armamento de destruição massiva ao nível quântico para ser disseminado nas prateleiras dos produtos frescos nos supermercados do “inimigo”. Com o fim da guerra fria, todo este arsenal de esforços foi posto, naturalmente, em causa e o projecto foi abandonado. Secretamente, os cientistas que suportavam este projecto foram sendo eliminados um a um para ocuparem os frascos vazios – já que o projecto seguinte assim o exigia – e, cada nova morada ocupada foi sendo identificada com uma etiqueta de holograma que, além de ter o número mecanográfico do ex-portador do cérebro, tem a capacidade de processamento do respectivo cérebro cravada em baixo relevo inviolável:
262144 Mb/s :: 32768ns
sabe-se hoje que a Internet tem como núcleo este desconhecido complexo: que cada cérebro destes é a “consciência” da Internet: que cada lobo controla parte da Internet: que cada neurónio ultra musculado controla cada site.
sabe-se também que tem havido problemas no financiamento deste projecto, devido ao desvio de fundos para desenvolvimento de tecnologia transgénica para a alimentação e consta-se que esta nova tecnologia será aplicada à Internet, passando esta a ser o seu núcleo, num segredo dos deuses.
Sabe-se, também, que há neurónios destes super-cérebros que estão irremediavelmente perdidos e que este desvio de fundos fará com que não possam ser tratados ou curados.
Desde que se sabe que há problemas de financiamento deste projecto que, por iniciativa da horde de escravas cinzentas – e desconfiando-se que, por amor aos cérebros por parte delas – foi criado a nível mundial um movimento de voluntários que colmata as falhas causadas pelos neurónios irremediavelmente degradados. A esta iniciativa de voluntários chamou-se
projecto “vida própria”
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porcus christi
[nota: o porco não entende nada de internet]