2006-01-30

xubilae

gostava de assitir ao Requiem de Mozart numa bela sala de concertos. ora... ::

      Casa da Música :: pesquisa avançada


1)
palavra a pesquisar: mozart :: [botão procurar]
resultado:
"A sua pesquisa não retornou qualquer resultado"

... hmmm.....

2)
palavra a pesquisar: quim barreiros :: [botão procurar]
resultado:
"A sua pesquisa não retornou qualquer resultado"

... errr......

3)
palavra a pesquisar: sandes de couratos :: [botão procurar]
resultado:
"A sua pesquisa não retornou qualquer resultado"


ah! ... :)


Assemblent, Sardoal - 2006

2006-01-29

eremitério #03

enquanto as sobras da chuvada morna daquela tarde escorriam aos solavancos ocre-sangue por entre as pedras desordenadas da calçada e se esvaíam no charco que era agora a "plaza montiel ramos", por baixo das borracheiras centenárias onde terminavam num recanto de sacos plásticos amarfanhados e garrafas de lixívia, ouvia o gotejar irregular caído do lusalite do alpendre sobre os lírios brancos perfilados pelo carinho de "guapita angelines", enquanto preparava o roteiro para a madrugada do dia seguinte, quando Paco chegasse com o "toyota" a abarrotar de sacos de farinha de milho para levar para as montanhas.
carta de apresentação do ministério do interior para apresentar na barreira da estrada que dá acesso à reserva natural do "lago jarpuaca", sem a qual não poderemos chegar às aldeias da amrgem do lago. mantimentos para nós e em dobro para deixar ao japonês dono da estalagem, como paga pelo alojamento. material fotográfico afinado, limpo e com baterias em duplicado. roupa para uma semana e meia, contado com possiveis lavagens. mapas e indicações. tabaco. rum. leitura.
o dia cai rápido, como é natural nos trópicos, e Paco aparece em passo acelerado, vindo do portão largo. estremeço ao pensar que há alguma desgraça que nos impeça de partir no dia seguinte: nada de especial: as calorosas boas noites. ao fim destes anos aqui esqueço-me sempre que Paco é sempre assim: esbaforidamente impaciente antes de uma viagem.


svaneti, república da geórgia - 2005

2006-01-28

zig-zag

tinha previstas três ou mais linhas a despejar aqui para acompanhar uma foto, das escolhidas "porque sim", mas estas três linhas não passam só de uma intenção ou de algo que estava para sair mas não saiu.

talvez amanhã


sardoal - 2005

2006-01-27

A y B y C

repara:

quando me dizes ::

      - que o que faço não está certo ::
    e refiro-me só ao que crio, huh? ::

      - que devia era seguir o que é visto como algo natural meu ::
    e tu? já pensaste no que é artificial teu? ::

      - que não devia fugir à minha maneira de estar ::
    é a tua ideia da minha maneira de estar que queres? ::

      - que não esgotei tudo e que devia explorar mais que que tenho::
    já reparaste o quão limitada é a tua capacidade em tudo para me dizeres estas coisas? ::

      - que acabo por complicar tudo ::

    .

    {sorrindo complacente} ... és tão simples!


2006

2006-01-25

raios gama#3

há, de certeza, uma porra de uns fios de sei-lá-o-quê, ou o caraças, que se espalham pelo mundo, esticadinhos, e que fazem as pessoas tropeçar neles sem darem conta disso, ou, melhor dizendo, pensarem que não são tropeções mas sim uma outra coisa qualquer como sejam os pequenos enganos que fazem e provocam chatices que se tornam, quando todas juntinhas umas à outras, maçadas que chateiam muito e depois, quando as pessoas franzem o sobrolho, ficam muito mal encaradas e com isso mudam o sítio dos tais fios de sei-lá-o-quê e fazem com que uns pobres desgraçados que iam todos contentinhos a passear tropecem neles, ou pensem que tropecam neles, e fiquem também com chatices que quando todas juntas passem a ser uma maçada também.

viram?... é assim que tudo acontece.



2006

2006-01-23

¨ job cancel pending ¨

Sábado: 21 de Janeiro de 2006 - 10:23

sentei-me na mesa onde sempre me sento, cá fora em frente à Dona Carmelita, e peço a mesma taça de vinho branco que sempre peço e colocam-na sobre a toalha de papel ondulado que, embora igual à da semana passada, é diferente. o carro que está estacionado em espinha entre os outros carros, de frente para mim por entre os choupos moídos pelos fumos da cidade, é diferente do de sábado passado.
bebo metade da primeira taça sem nenhum arremeço de entusiasmo, pois o carro continua estacionado conforme o vi quando cheguei e só dois pombos passaram entre mim e ele nesta última meia hora.
o Sol de Inverno aquece-me os pés que deixo propositadamente de lado, para que espreitem tortos por baixo da mesa e sinto nisso conforto.
á chegada dos donos do carro, já tinha a segunda taça de branco a meio e os pés já estavam confortavelmente quentes. assim, decidi recolhê-los um pouco para o conforto de uma posição mais natural. entretanto, quase ninguém passou pelo passeio e só mais um pombo passou entre mim e o carro.
os donos levaram o carro.
ficou, por cerca de 25 minutos, aquele lugar vago onde 5 pombos aproveitaram para pousar e debicar coisas invisíveis nesse espaço entretanto vazio.
durante o dia estacionaram e saíram vários carros - querem que vos diga a marca e modelo dos carros?: não acho necessário.

o curioso deste dia, foi que, pelas 17:34, na vaga daquele lugar de onde esvoaçaram 3 pombos, ao sabor já da - não me lembro bem - décima terceira ou décima quarta taça de branco, o carro que estacionou no lugar vago foi o que saiu de lá pelas 10:54.

respirei fundo. ajustei o colete por baixo do casaco. saí e fui para casa dormitar um pouco.



2006

2006-01-20

8% de ti

mecanicamente, sempre que bato a porta de entrada atrás de mim ao fim do dia, sacudo o chaveiro para soltar as chaves emaranhadas e enfio a pequena chave puída na caixa de correio de ferro forjado onde está lavrado a baixo-relevo o segundo-direito e de onde espreitam, em dias pares, folhetos de publicidade a supermercados enfiados á pressa. levanto a tampa pesada e tombam para o lado, sobre o fundo da caixa forrado de panfeletos de canalizadores esquecidos telecomidas ressequidas e videntes misteriosos, os sobrescritos do dia, até então à minha espera equilibrados uns nos outros no escuro daquela caixa.

Ontem decidi livrar-me do tapete de panfeletos esquecidos há meses no fundo da caixa: pousei o saco; por cima dele o casacão, e demorei-me a esgadanhar as camadas de folhetos do fundo da caixa até lhe ver o fundo ferrugento.

Já no calor do quarto, ao deitá-los um a um ::
           numa curiosidade tonta de quem estuda a sociedade contemporânea através da publicidade impingida ::
       na caixa de reciclagem de papel, estaco num post-it escrito na aflição de uma caneta de feltro negra e de traço incisivo:

“I miss me!

X.”



2005

2006-01-19

calle artemizia

sempre que corres, fico aflito.

o que me complica tudo é que, se te peço que não corras - entende - fico com sentimentos de culpa

que fazer?

ora tenta dar um passo a correr e outro a caminhar?

... a ver...



dos hermanas, espanha - 2006

2006-01-13

dlim*dlom

há três tipos de emails que eu imprimo:

1) os muito compridos que vejo interesse em ler:
guardam-se na pasta ou dobram-se em 4 e guardam-se no bolso das chaves de casa para se dar conta deles ao entrar em casa e ler calmamente, enquanto se bebe um chá quente e se ouve baixinho Debussi;

2) os comprovantes de qualquer negócio ou tipo de contrato:
se forem mais de uma página, agrafam-se as páginas umas às outras com firmeza e dobram-se em três, para ficarem com um aspecto institucional ou furam-se para arquivá-los num dossier; servem para comporvar ou reclamar;

finalmente

3) os que são uma martelada gelada no ferro morno da vida:
para recostar a cadeira e ler e reler, pensar e repensar, prever e sonhar, contabilizar e orçamentar, voltar a ler e a pensar, dobrar com fúria firme e guardar num bolso do sobretudo que levamos para o almoço para, durante o almoço, voltar a pegar nele e reler e juntar as peças do puzzle que já foi e pensar que peças irão encaixar no puzzle que irá ser e deixá-lo ali ao nosso lado, ao lado da taça da sobremesa e deixá-lo olhar para nós enquanto subservientemente baixarmos a cabeça para ir sorvendo cada colher de sopa e para, depois da sobremesa, voltarmos a pegar nele e nos dar vontade de o amarrotar com raiva e lançá-lo no caixote onde se lançam os restos da comida com a esperança vã de que o puzzle ficasse resolvido, mas, no final, voltamos a dobrá-lo em quatro e a guardá-lo no bolso do sobretudo para o voltar a ler e a reler e a pensar e a repensar...




PhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhoneticPhonetic


2006-01-11

trapped tiger script #0FA

system status:

:: begin loop
&&0001 zig-zag address module: #010F
&&0002 silently roaring address module: #022C
&&0003 blinded sight address module: #0001 [submodule: #003F]
&&0004 seekstate address module : #0000 [erratic: #D0]
:: end loop



aveiro - 2006

o carranca

sendo a partilha do peido - como nos cães a troca de cheiradelas de cu - um aval de confiança entre os humanos, há gente com quem, pelo fedor do hálito, não arriscarei



fónix!

"f", de flávia

É Janeiro e – sabes? – dou por mim nesta noite morna a pousar o livro na borda da mesa de ripas de madeira estalada à minha frente, aqui nesta alpendre onde o tempo passa devagarinho, e a olhar o vazio da molengona ventoinha do tecto a desenhar círculos de sombra amarelada e a jorrar para cima de mim este bafo pesado, quente e húmido das noites tropicais que demoram a adormecer. Fico às vezes horas a desenhar na memória esta mistura de sons que as noites aqui têm – acho que todos este “pueblozitos” têm uma identidade muito parecida que se confunde e adivinha nos sons dos quintais e das janelas abertas á noite: é o longíncuo latido aflito de um cão que faz ver o som da motoreta que rasga um horizonte escuro lá em baixo, ao longo da estrada poeirenta que bordeja o leito do Piquirí, ainda estreito aqui, tão longe do Paraná; é o ritmo “sambado”, cuspido algures por uma aparelhagem de segunda e abafado pelo restolhar das copas das árvores à brisa nocturna, que teima em chegar aqui, sobrando num sussurro quente com sabor a óleo de palma requentado e que acaba por morrer, exausto, lá para trás das últimas bananeiras do quintal; o fechar relinchante de um portão, dois passeios ao lado, que me faz adivinhar um café amargo a envolver sorrisos de chegada e atilho de peixes atirado para o alguidar.

Às vezes – sabes? – chego a sentir saudades do cachecol apertado contra o peito por baixo do sobretudo, aquecendo-me o respirar e dando conforto aos passos encharcados no tapete de folhas mortas do Outono nos fins de semana de Montargil.

Aqui – a vocês, que aí ficaram, não vos ocorre – as árvores têm folhas todo o ano e tudo paira no calor das noites.

Já falamos... Despertaram-me ao baterem-me na aldraba lá fora à entrada: espero que seja Paco com novidades para amanhã.



viana do alentejo, 2005

2006-01-10

eremitério #02

e ainda o dar conta pela manhã bem cedo, lá do fundo do estreito corredor escuro, do bater desengonçado da porta de entrada que só fecha á segunda e adivinhar o cheiro acre do pão acabado de sair do forno da "la bodeguita" agora pousado na cesta de vime serrano de Gonçalo - trazida junto das memórias que me permiti trazer - e antecipar a frescura da tijoleira a cada passo quase tropeçando na disputa do ronronar do "pascual" e do "si'nombre", a caminho da amigável mordomia do chá da manhã à sombra do alpendre da cozinha, de frente para vasos arranjados a primor de cantarolices por "guapita angelines" na véspera.

e esperar calmamente que apareça Paco, sempre inexplicavelmente esbaforido por detrás das lentes grossas que lhe aumentam a bonomia daqueles olhos negros, e me salte à mesa num sorriso enorme com as notícias para a nova saída em sua companhia pelos sinuosos "pueblitos de Chinchales", que será dentro de alguns dias, certamente.

e, se Paco não aparecer hoje, aparecerá amanhã.



viana do alentejo - 2005

eremitério #01

a rua levemente inclinada e de casas brancas, sujas dos salpicos encarnados da lama dos dias de chuvada, quando as "toyotas" meio desfeitas passam tropeçando na calçada irregular e abaulada para as bermas escavadas onde, nos dias da estação seca, se mantém a ensaboada humidade escorrida dos portões dos quintais vizinhos.

e o refúgio do pátio interno, fresco, rodeado dos alpendres sombrios nas tardes quentes, onde os dois gatos, entre sonecas que só os gatos sabem fazer, marcam o ritmo pasmacento do escorrer da vida à aragem dos entorpecidos sons aqui tão distantes da chepearia nas trazeiras da "tienda de la juventud" onde Celeste, à ombreira amarelo-puído da porta da frente, encosta a sua displicente saia rosada de folhos e mira desinteressadamente, a cada velha "pickup" que passa, os vultos escuros por trás dos vidros sujos da lama das estradas.

e os pequenos luxos - só meus e quanto bastem - para ajudarem a que a saudade não me assole nos momentos de quebra, quando, à morna luz coada da manhã, se dissipar o cheiro mestiço do linho amarrotado sobre os pés de ferro.



"sin nombre, todavía"

2006-01-06

vento solar grau 7

ao chegarem à árvore previamente contratada na entrevista preliminar da semana anterior, ele, com uma calma contagiosa segurou-lhe no braço com uma leve firmeza

- como é? sempre queres subir?

perguntou-lhe, simulando um ar seguro e contagioso de quem tem certezas absolutas ::
      sempre soube fingir bem neste tipo de situações em que é necessário incutir confiança ::

- achas que consigo ver tudo, lá de cima?

notava-se que tinha estudado bem o folheto, embora o irrequieto esfregar das mãos uma na outra, enquanto falava, deixasse aperceber o pavor e a ânsia quase fora de controlo que se tinham instalado desde que tinhamos chegado logo pela manhã ao bosque sombrio

- isso não te garanto, mas que terás uma visão bem diferente das coisas, terás!

três disto todos os dias já lhe tinham dado suficiente traquejo para, agora, simular as certezas e aquele olhar de segurança por trás do que era, para ele, uma rotina enfadonha ::
       o cliente terá que se sentir apoiado desde que entra no complexo até ao momento decisivo. para isso, o Mão-de-Apoio não poderá hesitar uma fracção de segundo sequer: terá que receber o cliente com um sorriso, para não lhe dar a ideia da volta; terá que, sempre que possível, apoiá-lo com respostas concordantes, embora seguras e positivas para que o cliente seja arrastado sem hesitar; terá que desviar a conversa com a arte de um Orador-Universal sempre que haja a mais pequena hesitação por parte do cliente; deverá apoiá-lo desde o início ao fim da subida ::
     segundo os Manuais do longo estágio para o grau de Mão-de-Apoio.

- então, vamos lá. há que tempos que queria resolver isto!


finalmente, os pés ficaram pendentes depois do banquinho ter sido chutado para o lado segundo os standards do Manual e com a experiência ganha em três anos de Mão-de-Apoio e a corda esticou e apertou-lhe o pescoço enquanto as mãos, a pouco e pouco se acalmaram em tremores cada vez mais tranquilos até ficarem imóveis, balançando junto ao corpo pendente.

por uns momentos ficou a olhar mais este cliente com o seu problema resolvido com eficiência, enquanto se lembrou que tinha que se preparar para o estágio de Orador-Universal que começaria na próxima semana.

virou costas, sorriu satisfeito e foi tomar um café com os colegas.



lisboa - 2005

2006-01-05

o enxerto de purpurina

Há tempos, numa viagem que fiz à república da geórgia, encontrei numa gaveta de um hotel de segunda categoria onde estive duas noites hospedado, um envelope com uma folha amarelecida dentro. Estava manuscrita em alfabeto georgiano e guardei-a.

Com a cumplicidade de uma amiga de Tbilisi, ao fim de uns meses obtive a tradução:


Início de documento
........

num local de coordenadas desconhecidas e não referido em mapas nem em fotografias de satélite e – diz-se – cravado numa planície de estepe parda da Sibéria, resiste ao longo dos anos um edifício gigantesco que cresce para baixo do solo em camadas de betão, tubos e cabos. Fala-se que foi, a determinado momento histórico da guerra fria, uma ultra-secreta concessão da antiga união soviética a imposições dos estados unidos num gorado contrato diabólico de controlo mundial.
No que resta deste complexo absurdo, segundo se diz, há, hoje em dia, uma série de frascos enormes, de vidro cristalino, que são mantidos por um batalhão de devotas mulheres esqueléticas, gelidamente obedientes que, de bata cinzenta abotoada até à pose arrogante, cumprem turnos ao segundo, mudam líquidos com carinho mecânico, vigilam corredores de penumbra silenciosa, trocam olhares inanimados: tudo para manter o legado.
cada frasco contem, em suspensão controlada e em vida suspensa, um cérebro que pertencera a um cientista de topo que recebia o salário ao abrigo do programa internacional V.I.D.A. (*) entretanto extinto.
A ideia inicial de manter estes cérebros activos era a de desenvolver armamento de destruição massiva ao nível quântico para ser disseminado nas prateleiras dos produtos frescos nos supermercados do “inimigo”. Com o fim da guerra fria, todo este arsenal de esforços foi posto, naturalmente, em causa e o projecto foi abandonado. Secretamente, os cientistas que suportavam este projecto foram sendo eliminados um a um para ocuparem os frascos vazios – já que o projecto seguinte assim o exigia – e, cada nova morada ocupada foi sendo identificada com uma etiqueta de holograma que, além de ter o número mecanográfico do ex-portador do cérebro, tem a capacidade de processamento do respectivo cérebro cravada em baixo relevo inviolável:

262144 Mb/s :: 32768ns

sabe-se hoje que a Internet tem como núcleo este desconhecido complexo: que cada cérebro destes é a “consciência” da Internet: que cada lobo controla parte da Internet: que cada neurónio ultra musculado controla cada site.
sabe-se também que tem havido problemas no financiamento deste projecto, devido ao desvio de fundos para desenvolvimento de tecnologia transgénica para a alimentação e consta-se que esta nova tecnologia será aplicada à Internet, passando esta a ser o seu núcleo, num segredo dos deuses.
Sabe-se, também, que há neurónios destes super-cérebros que estão irremediavelmente perdidos e que este desvio de fundos fará com que não possam ser tratados ou curados.

Desde que se sabe que há problemas de financiamento deste projecto que, por iniciativa da horde de escravas cinzentas – e desconfiando-se que, por amor aos cérebros por parte delas – foi criado a nível mundial um movimento de voluntários que colmata as falhas causadas pelos neurónios irremediavelmente degradados. A esta iniciativa de voluntários chamou-se

projecto “vida própria”

........
fim de documento



porcus christi
[nota: o porco não entende nada de internet]

2006-01-04

fado fictício

de cada vez que chegava a casa, desde aquele natal, que encontrava a porta entreaberta. lembra-se dos receios das primeiras vezes que isto acontecera e acha-se incomodado por se ter habituado a tal facto, a tal pretensa intrusão. hoje em dia, continua a ter que tomar pastilhas indutoras do sono para que a cisma lhe desapareça no calor da almofada:

- porque é que não encontro nada tocado em casa, nenhuma peça mexida, gaveta remexida, sanitários usados?

passou, sem resultado algum, a estudar a posição dos objectos mais insignificantes, antes de sair para a repartição, para detectar um dia algum sinal mais pequeno de uma vontade alheia: caneta bic em diagonal entre "lisboa" e "totoloto"; cabeça do saca-rolhas a tocar no pé da colher-de-pau pequena; sabonete com o pelo no "a" de "ach brito"; telecomando em esquadria com a sombra da rosa amarela na mesa, quando o candeeiro estivesse aceso. tudo isto tomado nota numa pequena folha da sua agendinha de capa negra e posta no mesmo bolso do casaco.

ao chegar a casa verificava sistematicamente que nada tinha sido tocado um só milimetro. nem a chave que deixava no chaveiro da entrada antes de puxar a porta.

começara, nestes ultimos tempos, a ficar triste por começar a concluir que se sentia só.

2006-01-02

a estatística

sentado na sala, à luz escondida no canto do sofá e, olhando no velho armário a prateleira onde despejo guias, mapas e literatura de viagem - as passadas e as que sonho fazer - dou por mim a pensar que sou um mau viajador.
sou demasiado imediatista e varro as memórias do passado com uma naturalidade assustadora. vivo o prazer momentâneo com demasiado fervor e arredo para desconhecido algures em mim o que pretendo guardar como memória, não conseguindo mais tarde recolher coisa interessante para mostrar ou partilhar.

já tentei fazer diários de viagem: escritos, teclados, gravados; e nada: nados mortos sem torpor que interesse ao mais insignificante necrófago leitor!

talvez a minha empírica primazia pelo imediatismo da imagem me faça, em vez de descrever sensações e experiências - gentes e lugares, vivências e cheiros - registá-las em fotografia de um modo muito meu que só a mim me conta histórias.

contudo, de uma coisa estou certo: não o farei de outro modo.

um dia contratarei um escrivão obediente que tenha também arcaboiço para transportar uma mochila e que sorria sempre que lhe peça.


. . . . . . .


em jeito de nota de rodapé, um excerto de um email de um amigo, antes da passagem de ano:

"
-acabo de chegar de Roma
-tenho um feeling fodido de que a idade me anda a quilhar.
"

respondi-lhe que:
o envelhecer é propositadamente lento no ser humano para que possamos instalar os "plugins" - que há bem mais e mais perto de nós do que pensamos - naquele interface a que chamamos "vida".

depois desta, não obtive mais resposta.


mestia, república da geórgia - 2005

0ºC

há alturas do ano em que me lembro sempre daquela tarde passada no Gerês, sentados nos degraus do alpendre daquela cabana que sempre imaginei mas nunca vi, olhando a serenidade do bosque de bétulas em frente, naquele fim de tarde calmo de outono. por mais que não queira, é invitável o recordar-me do quanto falámos acerca de cada um e do quanto havia para dar e receber e do quanto é difícil dar e receber. a cada refrega fresca da montanha ajustávamos o cachecol por entre o casacão, debaixo daquele cobertor de lã rija e, como se o ar frio da montanha marcasse o compasso calmo do que nos ía no pensamento, por ali íamos ficando sem pressa absoluta de nada. já com o sol a desfazer-se nos contrafortes distantes da Peneda ao fundo, fomos cada vez mais conversando em silêncio, pois mais não sentiamos falta.

em cada ano que passa recordo-me de como me fechaste para sempre, dizendo-me, enquanto chapinhávamos os nossos passos no musgo do caminho:

"o que gosto em ti é o seres abissal: tão fascinante, frio e impossível"

nunca acreditei em ti. talvez por isso é que nunca mais nos vimos desde esse dia.

hoje recordei-me de ti.



copenhaga - 2006/00/00

segundo o coração

por uma questão de facilidade de compreensão, poderemos considerar que a passagem de ano demora aproximadamente um décimo de segundo, que é a fracção de tempo que os cronómetros actuais geralmente têm para nos mostrar.



copenhaga - 2006/00/00