2005-12-31

a pedra brilhante

hoje copenhaga: como nåo me apetece andar a ligar usbs e sdcards e porras dessas e como as fotos que tirei ontem såo fotos de viagem, daquelas que tem um amigo ao centro e um monumento por tras, embora nenhuma tenha um amigo ao centro e um monumento por tras, nåo coloco aqui uma foto de copenhaga.
alias, escrever cøm um teclådø desdes e uma trabalhæira.
vou calcar as botas, por o cachecol e o blusåo, enfiar o gorro e as luvas e vou ate a cidade.


madrid, av. america - 2005

2005-12-29

a morada do depositário

geralmente, todos os anos escolho um dia à sorte para festejar aquela coisa a que, por norma imposta, chamam "passagem de ano".

no equinócio de verão, à meia noite tenho a decisão: no dia anterior e no próprio dia não tomo banho para que me sinta puro. visto-me de negro de alto a baixo e pego na piúrra puída com números de um a seis que herdei e atiro-a, rodando, sobre o tampo liso do meu caixão ::
      considero um luxo hipócrita o uso de ornamentos numa caixa de madeira que ficará a apodrecer debaixo do chão ::
    comprado em saldo há mais de uma dezena de anos e pousado em cima de uma mesinha rectangular na cave escura e bafienta cá de casa.

atiro-a três vezes para poder escolher os dias com base numa fórmula de família que o meu pai me passou, mostrando-me a página numero seis da sua agenda minúscula onde assentava, em letra ainda mais minúscula, tudo o que lhe vinha à cabeça.

este ano calhou-me as vinte e quatro horas e zero segundos do dia trinta e um de dezembro como momento a festejar!

dia dois de janeiro quando, ao regressar ao trabalho, me perguntarem estupidamente:

“então? que tal o ano?!”,

responderei laconicamente:

“maravilha!! barriga cheia, não fazer a ponta de um corno, conta bancária recheada!... que querem mais?”




copenhaga - 2005

DVD #1

o amor tem sempre dois lados:


o lado A e o lado B






porcus christi

2005-12-27

o ministério pimpão

das pessoas que conheço, umas 76,4% dizem claramente que "odeiam o natal" ou qualquer coisa desse género.

bem!...
deixa cá pegar no lápis e nesta folhinha para me ajudar a fazer um exercício mental para me enquadrar neste fenómeno:

por um lado, dizer que se odeia algo é uma forma de marcar personalidade, por outro, fica bem mostrar a diferença. o problema é que, quando 76,4% das almas pregam a mesma cartilha, xau diferença, e fica bem dizer que se adora o natal. aí, o problema nasce de novo e, quando se chegar a 76,4% de pessoas que dizem que "adoro o natal", teremos o mesmo problema, mas em relação à trupe que adora o natal. por isto, seria bom que fosse decretado que 50% das pessoas deveriam adorar o natal e outras 50% das pessoas deviam detestar o natal.

[toma nota: de-cre-tar... hm-hmm... cin-quen-ta por cen...]

quanto ao marcar a personalidade,... bem!... o problema é que o natal passou a ser um frete por termos que ser nós a comprar prendas e fazer comezainas e isto nos deixa com uma dolorosa nostalgia dos tempos em que eramos crianças e o máximo que tinhamos como obrigação era o abrir prendas. "portantos", vamos lá a outra medida que permita só recebermos prendas e não termos que as dar e a que só haja comezainas vendidas por empresas de distribuição de comida - tipo tele-peru ou tele-bacalhau - onde trabalharão asiáticos não católicos.

[toma nota: "por-tan-tos", de-cre-tar pe-ru, ba-ca-lhau... pren-das ba-ra-tas...]

ah!... [já agora...]

[toma nota (em adenda):
alínea 1: aproveitando o recurso abundante de asiáticos não católicos e solicitando - so-li-ci-tan... - aos serviços de logística central, para minha casa deverão fazer um biscate de entrega de rabanadas bem sumarentas, duas ou três velinhas com motivos de natal e algumas prendas para dar aos putos]



porcus christi

morte ao primeiro pisco

no final de contas, quando tu olhavas por aquela fenda estreita na tábua daquela tosca janela, o que vias não era mais do que o que a tua imaginação queria que visses, compreendes? funcionava assim como que se fosse uma luzinha quente de magia, como se a vida te fosse projectada do modo que querias, como se as pessoas que vislumbravas, afinal, fossem todas querubins de sorriso bochechudo e rosado que deitavam pozinhos de perlimpimpim sobre o teu coração ainda amarfanhado e ressequido pela ressaca do negrume por que passaste, não é? mas olha que, agora, essa frincha mágica vai-se dissipar e terás que encarar frontalmente as fácies medonhas da realidade. mas, não tenhas medo pois todos os que encararás sofrerão de medos maiores que os teus.



porcus christi II

2005-12-23

clique em xx/xx/xxxx

quando nos levantámos, tinhamos ambos o rabo molhado do musgo húmido daquele muro de granito escuro.

avisei-o de que se iria decepar sem que se desse conta.

fez-me ouvidos moucos e sorriu-me, justificou-se com o coração


hoje em dia, dói-me imaginar os bocados abandonados daquele intelecto perdidos pelos recantos daquele apartamento pequeno enrolados a tufos de cotão e pintelhos e que a Ivanova não dá conta ás sextas pelas quatro da tarde.

hoje, contento-me com o seu sorriso, mesmo sabendo-o de sofrimento.




tributo à febra assada I

2005-12-22

factor 20

num domingo espesso de névoa matinal, há uns tempos, numa mesa de café na baixa de lisboa, desenhei um kit de sobrevivência urbana num canto da toalha de papel usando algumas manchas de geleia e manteiga das torradas. servi-me do resto do café agarrado com açúcar à colher para pormenorizar alguns dos componentes do kit de modo a que o escuro da borra os fizesse notar. com os dedos sujos de restos do cinzeiro ali à mão tracei os pormenores menos importantes da coisa.

no fim, recostei-me na cadeira, e com ar crítico, inclinando a cabeça, olhei com um orgulho sonolento a obra feita.

era composto por uma malinha de plástico branca, daquelas que se fecham com dois *tlacks* e, quando aberta, permitia o acesso rápido a qualquer dos seus componentes, pois qualquer um deles seria de uso **urgente**

ao levantar-me dos vinte cêntimos de gorjeta, dobrei o plano, depois de o rasgar cuidadosamente, e enfiei-o escrupulosamente numa daquelas pregas da carteira de bolso, daquelas que nunca se usam para nada ou que se usam para guardar as coisas que só nos queremos recordar quando trocamos de carteira, em cada três ou quatro anos.

...

hoje troquei de carteira

...

se queres que te leve pela mão, diz-me para que coloque a luva de latex daquelas de fácil acesso do tal kit que nunca passou de um plano feito numa manhã em que precisava de uma mão que não tivesse luva de latex.



barcelona, em frente á sagrada família - 2003

nó da A1

não sei se é por ontem ter sido o solstício que me deu para isto:

os "meus" pequenos almoços, [dos que me lembro] :

. pão "carcaça" ainda a estalar de quentura - trazido pela senhora Laura, pela manhã - com uma tranca de queijo limiano e ovos mexidos em azeite numa frigideira de ferro, em ponte de lima, nos anos 80;

. pequeno almoço bouffet no Holiday Inn do aeroporto de Dublin em 2002 [os cogumelos ficaram na memória];

. um "mollete de jamon e aceite de oliva" com meia de leite, numa qualquer tasca capaz disso em Sevilha;

. 45 minutos de pequeno almoço no hotel em luanda, antes do dia puxado de trabalho, nas minhas idas a angola nos anos 80 e 90 [ não descrevo, embora me ficasse na memória o sumo fresco de papaia ];

. katchapuri e pão com queijo de cabra com um ovo estrelado ao lado, numa varanda em Kutaisi, na República da Geórgia, antes de partir para um dia de viagem em 2005;

. mordomia de croissants estaladiços, compotas à francesa, chá preto, bolachas de manteiga, um solitário jornal, uma piscina privada e calma num relvado com sombras de pinheiros, tudo servido com muita moleza sem pressa, num casarão em vilamoura, no início dos anos 90;

. farinha "Pensal" com leite, em aglomerado açucarado, já nem me lembro quando;

...

não! ... não sei o que vou tomar de pequeno almoço em cada dia que passa... logo se vê quando me sentar a uma mesa ou me encostar a um balcão.



: :   p o r c u s   c h r i s t i    : :




2005-12-16

cratera

faz hoje 13 anos que aconteceu qualquer coisa que não estava prevista no curso da minha vida e que modificou a minha maneira de encarar a maior parte das pessoas.
a recordação chegou pelo correio na forma de um postal de cantos esmigalhados dentro de um daqueles sobrescritos com tiras diagonais azuis e vermelhas a lembrar que o Caravelle era um modo de viajar prático e seguro. dentro do sobrescrito, uma fotografia amarelecida de luanda tirada da do alto da boavista e um choradinho gatafunhado atrás, a caneta de tinta permanente, inclinado e com letra mais pequena no final, subindo o bordo denotando desespero na missiva.

leio::
"desde que partiste [que] aos sábados venho sempre aqui e sento-me [na] nossa pedra e fico a tarde toda a falar contigo e tu não me respondes"

penso::
não percebi nada desta merda.

na dúvida, fui ao caixote do lixo onde deito os papéis para a reciclagem e, pegando cuidadosamente no sobrescrito, leio agora com atenção o nome do destinatário.

... porque é que o cabrão que viveu na minha casa antes de mim não deu conhecimento a toda a gente com quem se dava - ou deu - de que mudou de casa há quase dois anos!?



2005

morangos silvestres

sempre que revejo L., ataca-me uma angústia que se apodera de mim e me tolhe durante mais de uma semana e só termina com a bebedeira corriqueira de sábado á noite, quando acordo numa cama estranha ou num vão de escada húmido e desconhecido.

nunca percebi, ao longo destes últimos anos, o porquê deste estranho fenómeno - o da angústia: note-se! - e já experimentei várias modalidades para me encontrar com L. de modo a que, por exclusão de partes, vá melhorando a performance da angústia ao longo dos anos: já vimos o por do sol juntos comendo telepizza e bebendo sumois, em silêncio durante horas; já ficámos cada um no seu carro, lado a lado, uma vez com ambas as frentes para o mar, outra para a terra, ali para os lados da praia do meco, sem nos tocarmos e falando, pelas janelas entreabertas, de coisas da vida; já nos vimos em restaurantes, bares, tabernas, tascas, esplanadas e até dançámos um tango electrónico num bar de putas ali para os lados do edifício dos correios; fumámos ganzas e bebemos mistelas nojentas com absinto, bezuntámos a pele com cenas pastosas e alucinogéneas, corremos até nos estafarmos para de seguida emborcarmos vodka-laranja com pisang-ambom até matar a sede; passámos fim de semana juntos numa aldeia perdida onde ainda se pisa a merda das vacas ao entrar em casa; alugámos um quarto de uma pensão rasca equidistante das nossas casas por uma noite e falámos de memórias a noite toda;
fizemos trinta por uma linha; pintámos a manta; partimos a loiça;...

mas,

sempre que revejo L., ataca-me uma angústia que se apodera de mim e me tolhe durante mais de uma semana e só termina com a bebedeira corriqueira de sábado á noite, quando acordo numa cama estranha ou num vão de escada húmido e desconhecido.



copenhaga - 2005

entre palitos

são cerca de quinhentos metros.
são, primeiro, uns duzentos metros sobre o chão cinzento e manchado do óleo dos camiões, depois, uns cerca de trezentos metros - não sei precisar bem as distâncias, mas para o efeito serve.
primeiro, vou para lá: no verão sai-se do fresco da sombra para o calor abrasador do sol reflectido no enorme paredão branco que nem a nortada varre; no inverno é o vento frio gelado que nos corta as orelhas ao virar a esquina ao metro duzentos.
depois, venho para cá: poderia escrever a frase anterior ao contrário, mas não se compreenderia como conseguiria eu falar com quem me cruzava entretanto, por isso, à vinda, bato a porta - agora com puxador segundo a norma ISO 9002 - atrás de mim e, descascando o palito, partindo-o ao meio para o rentabilizar e transformá-lo em dois::
      porque raio não fabricam palitos já partidos em dois?::
    e tentando criar uma lasca pontiaguda que entrará melhor nos intervalos interdentários mais estreitos, caminho evitando as irregularidades da estrada de alcatrão baço e gasto e, quase invariavelmente me cruzo com as mesmas almas, dia após dia: "bonjour", diz já há cerca de dois anos, na brincadeira, a roliça meia-leca da secção de pessoal, ao que eu respondo com o invariavel sorriso "bonjour"; o careca do SAC ::
      nunca tive jeito para fixar ou falar por iniciais! deve ser por isso que nunca me filiei em nenhum partido político: correria o risco de um dia acordar a meio de uma palestra na sede do partido da oposição ::
    finge sempre que vai bater a continência, ao que respondo com uma imbecil ameaça de "sentido!"; ao subir as escadas, por volta do metro duzentos e sessenta e seis, geralmente não encontro ninguém, o que não interessa para nada saber; já na plataforma e ao virar da tal esquina, dou sempre com o rapazola dos computadores a quem eu ameaço sempre com uma parvoice qualquer, como o fingir que atiro uma pedra; já na recta final o entusiasmo é vibrante quando recebo um sorriso simpático do fulano que nem sei o nome e que está sempre sentado num empilhador a palitar os dentes.

ah!...
atiro sempre a primeira metade do meu palito para o cinzeiro à chegada á meta.
a outra metade, espeto-a mais à frente na pelicula aderente que envolve uma palete aleatória no armazém de expedição para exportação.

acho que vou passar a escrever mensagens aflitas em letra minúscula e em 4 idiomas diferentes nessas segundas metades de palito, assinando com um X e com o meu email.



lisboa - 2004

2005-12-15

e-bichos #1 :|

hm... lembrei-me:

perante um assobio, um e-peru fará "google-google-google"?

:|




aveiro - 2004

2005-12-14

spot: Iquique

mais uma vez dou por mim a cravar o quotidiano com a cunha do entusiasmo de prever o que irei viver uns dias.



blaj, roménia - 2005

2005-12-12

linkto: blog d'apontamentos

para o fotoblogs:

"Ignora-me, disse ela, e ele ignorou-a tanto e com tanta intensidade que se ignorou até a si mesmo."

luís ene - novembro, 2005

linkto: efeitos secundarios

para o fotoblogs:

"Geralmente bem tolerada quando administrada nas doses prescritas, estando especialmente recomendada para casos de sensibilidade. Reacções alérgicas são em geral reversíveis e ocorrem com mais frequência em indivíduos com histórias de hipersensibilidade"

ana saramago - novembro, 2005

2005-12-10

quadrado e círculo

como te disse na última vez que estivemos a comer tremoços ::

       lembras-te como eramos previlegiados? como os nossos tremoços vinham num pratinho de plástico cor-de-larança roçado, enquanto os entreges aos autóctones eram atirados com desprezo para a mesa suja de uma tarde de cerveja e pó ::
     naquela noite morna de verão, ao som daquele orgão a um canto, que fazia o papel completo da orquestra de baile naquela eira vazia iluminada por lâmpadas amarelas que abanavam, dos fios presos entre postes retorcidos dos nós mal aparados, ao vento estival que cheirava a campo ::
       gosto à brava do cheiro a terra que o vento arrasta nas noites mornas de verão ::
    mas - dizia eu - enquanto os dois, apoiados de costas para o linóleo amarelo que teimava tapar o tosco daquele balcão improvisado olhávamos aquela eira tristemente vazia e tentávamos silenciosamente adivinhar os pensamentos um do outro a cada gole da mini ainda gelada à força bruta de calhaus de gelo flutuantes no alguidar sujo onde os rótulos soltos de se colavam a tudo do que lá saía ::
       ainda me recordo do expedito abrir de cada mini como se do relançar deste jogo a cada momento daquela noite ::
     e nós continuavamos ali, suspensos naquela calma sinistra perante a eira que foi pensada em alegria e baile e agora estava vazia - sempre esteve vazia - e não fazia sentido nenhum e ainda mais, aquele orgão ainda a debitar ritmos de plástico para o vazio amarelado da restolha do improvisado caramanchão de canavial seco que supostamente deveria estar cheio do retinir da alegria que houve em tempos.
era, então, o verão de um ano qualquer dos noventa - ou seria dos oitenta?, já nem me lembro bem, vê lá! - em que os

:: horizontes eram curtos e não sofríamos por isso.



sardoal - 2005

2005-12-09

constatações #287

outro dia, ao passar ali ao lado junto aos esguichos de água do lago que me salpicaram a camisola e a cara, dei conta de que

um pião, quando rodopia abaixo de uma determinada velocidade, ::
     a qual não sei fórmula para a calcular ::
   tomba.



festa da curva - jan 2005

2005-12-06

tributo á tijelada

ingredientes:
· 12 Ovos · 1 Litro de leite · 12 Colheres de sopa de açucar · 1 Pitada de canela · 3 Tiras de casca de limão

modo de fazer:
Bata os ovos inteiros (sem separar as claras) com o açucar. Junte o leite, as 3 tiras de casca de limão, uma pitada de canela e bata tudo. Retire as tiras de casca de limão. Coloque tudo dentro de um tacho de barro vermelho vidrado. Tape a boca do tacho com papel de alumínio, para não ficar demasiado queimada por cima (antigamente como tal não existia usava-se papel pardo). Leve a cozer em forno bem quente (de preferência em forno de lenha) durante mais ou menos 1 hora. Retire forno, deixe arrefecer e coloque no frio. Sirva dentro do tacho de barro vidrado.

...

chlep!!



Sardoal - 2005

chanatos surrados

"arrebita" é daquleas palavras que consegue um carinho enorme, mesmo nas situações mais romanticas.

exemplo:

"oh manél, isso aí arrebita, ou não?"

:)



numa tasca - 2005