são cerca de quinhentos metros.
são, primeiro, uns duzentos metros sobre o chão cinzento e manchado do óleo dos camiões, depois, uns cerca de trezentos metros - não sei precisar bem as distâncias, mas para o efeito serve.
primeiro, vou para lá: no verão sai-se do fresco da sombra para o calor abrasador do sol reflectido no enorme paredão branco que nem a nortada varre; no inverno é o vento frio gelado que nos corta as orelhas ao virar a esquina ao metro duzentos.
depois, venho para cá: poderia escrever a frase anterior ao contrário, mas não se compreenderia como conseguiria eu falar com quem me cruzava entretanto, por isso, à vinda, bato a porta - agora com puxador segundo a norma ISO 9002 - atrás de mim e, descascando o palito, partindo-o ao meio para o rentabilizar e transformá-lo em dois::
porque raio não fabricam palitos já partidos em dois?::
e tentando criar uma lasca pontiaguda que entrará melhor nos intervalos interdentários mais estreitos, caminho evitando as irregularidades da estrada de alcatrão baço e gasto e, quase invariavelmente me cruzo com as mesmas almas, dia após dia: "bonjour", diz já há cerca de dois anos, na brincadeira, a roliça meia-leca da secção de pessoal, ao que eu respondo com o invariavel sorriso "bonjour"; o careca do SAC ::
nunca tive jeito para fixar ou falar por iniciais! deve ser por isso que nunca me filiei em nenhum partido político: correria o risco de um dia acordar a meio de uma palestra na sede do partido da oposição ::
finge sempre que vai bater a continência, ao que respondo com uma imbecil ameaça de "sentido!"; ao subir as escadas, por volta do metro duzentos e sessenta e seis, geralmente não encontro ninguém, o que não interessa para nada saber; já na plataforma e ao virar da tal esquina, dou sempre com o rapazola dos computadores a quem eu ameaço sempre com uma parvoice qualquer, como o fingir que atiro uma pedra; já na recta final o entusiasmo é vibrante quando recebo um sorriso simpático do fulano que nem sei o nome e que está sempre sentado num empilhador a palitar os dentes.
ah!...
atiro sempre a primeira metade do meu palito para o cinzeiro à chegada á meta.
a outra metade, espeto-a mais à frente na pelicula aderente que envolve uma palete aleatória no armazém de expedição para exportação.
acho que vou passar a escrever mensagens aflitas em letra minúscula e em 4 idiomas diferentes nessas segundas metades de palito, assinando com um X e com o meu email.
lisboa - 2004