no fundo de uma caixa de papel que encontrei outro dia em casa, enquanto arrumava um caixote que saltitou por três casas onde vivi nestes útlimos treze anos, encontrei um papel amarelado, escrito à mão por mim não sei quando no qual tentei entender, no meio de sarrabiscos já gastos, o que tinha escrito:
ao olhar aquilo, para me ajudar a entender o que estava gatafunhado ali, tive que fazer uma viagem para me recolocar naquela altura:
tinha acabado de chegar de Luanda fazia de certeza pouco tempo, pois referia o pesadelo recorrente que sempre tinha nos dias posteriores a uma das várias viagens que fiz naquela década a Angola ::
:: a estrada e o ar eram vermelhos de fim do dia e acabávamos sempre com o jipe atascado numa mata de palmeiras no fundo da cidade, quem ia pela estrada do Catete, vendo - estranhamente dali - o mar em baixo ao fundo com navios à espera ... à espera
e era verão, pois falava de qualquer coisa acerca da casa de família e do não querer ali estar e querer partir para qualquer sítio desde que fosse fora dali, longe do mar ::
:: não entendo o porquê deste desespero em relação ao mar, que sempre gostei muito e do qual sinto sempre saudade
tinha algo escrito sobre uma vereda por baixo de pinheiros, mas, na realidade esta frase - frases - não diziam nada que eu entendesse nem conseguisse encontrar andando ás voltas na memória.
alisei com a palma da mão o papel em cima da patine escura da mesa e puxei um pouco mais o pendente do candeeiro para perto, de modo a poder perceber o que tinha despejado naquela data ali::
:: "por mais uma vez sou forçado a te gr[
deverá ser "gritar"] ...sempre a aba[
não se percebe]... ...seguiamos todos entre os pinheiros e sabe[
ndo]... ... quase não chegámos nem sequer ao cimo percorrendo [...] vereda escura ...[
bocado grande sem entender]... ... deixaste[
não se percebe]... sem que nunca mais o visses desde esse dia e sabiamos que nunc[
a]... ... sempre..."
assinado na minha letra com um
X
montalegre, sardoal - 2005