2005-10-31

amarelinho é sortinha

disseste-me que não te lembras dos sonhos que tens, não é? olha, eu nem por isso. aliás, "nem por isso" é aquela resposta que dá jeito - "dá jeito" também é bastante oportuno. já que me falas nisso, aproveito para te lembrar que, quando sonhas, mantens a actividade de teu cérebro em ebulição, o que faz com que estejas vivo. sim! isso, porque há alguns pensadores que dizem que, quando se dorme, morre-se um pouco. não ligues: se te fosses reger pelo que dizem os pensadores, já estarias morto defunto enterrado em baixo da terra. o quê? não se pode dizer isto? estás doida?! olha lá, minha linda! que achas se nós fossemos tentar conjugar sonhos? sim, daqueles que não se concretizam, que cheiram a chouriço de cebola e se conseguem apalpar? ... digo-te: se conseguissemos conjugar sonhos desses, acho que seríamos felizes: era como se casássemos mas sem dar o nó - "até que a morte os separe" e merdas dessas. bem! se quiseres, é só mandares um sms, que eu acorro a correr andando bem depressa e aos saltinhos.

"estou aqui!"

é daquelas frases que se podem dizer e nunca soam mal, sabes? servem para bezuntares o pão ao pequeno almoço, enquanto não consegues comunicar. deixas um postit, na noite anterior, na mesa do café da manhã no lugar dele a dizer bem claro: "estou aqui!" e esperas pacientemente que não te sacuda de novo as migalhas da tosta para o teu colo.

funciona: vai por mim!

ah! ... "vai por mim!" também serve.

2005-10-30

giz

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(depois de ler e reler o post que aqui estava, a direcção deste blog decidiu apagá-lo)

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2005-10-21

the grey zone

lembras-te daquele mail que enviaste para o endereço de email que encontraste na página de "contactos" daquela associação para a qual querias fazer um trabalho que te ajudaria na tua tese?... e aquele mail no qual depositaste umas esperanças tontas e que enviaste para o endereço de email do escritor sul americano com que sempre te deliciaste em horas e horas de leitura e no qual só pedias uma resposta nem que fosse para, educadamente, te mandar á merda? ... e aquele outro mail que enviaste para aquele jornal conhecido da cidade no qual pedias uma entrevista que frisaste, seria sem compromisso, que darias tudo e não cobrarias nada para desenvolver aquela tão desejada pesquisa com que sonhavas lançar-te no que gostarias de fazer pela vida fora?...

... [ nenhuma resposta ] ...

pois!

há uma zona da internet que eu imagino como um lugar algures acima da estratosfera, de um vazio horrível, uma massa gasosa cinzenta-opaca onde só há um ruído de fundo baixinho e contínuo que parece um zumbido grave e onde pairam estes emails que não vão parar a lado nenhum. ficam assim, a pairar como folhas de papel num ambiente sem gravidade, sozinhos... coitadinhos!...


portela de sacavém, lisboa - 2005

pedro e o lobo

hoje ao pequeno almoço - na verdade, chamar ao queque e ao café "pequeno almoço" é um abuso de confiança - lembrei-me de Peter.

não sei bem porque é que me lembrei dele: não sei se foi o ar ausente da magricela que se senta sempre na mesma mesa - mais coisa, menos coisa - a comer a sandes de queijo transbordante com a meia-de-leite; não sei se foi o barrigudo de cara careca de bola e de camisa a estoirar pelos botões que come rissóis ao pequeno almoço - valha-me deus! quem conseguirá comer rissóis ao pequeno almoço? - e que alarda lugares-comuns de futebol com os empregados; nem sei se foi a escanzelada de seborreia exagerada e roupa demodé pingona que, depois de pedir algo em surdina ao sr. antónio, fica a olhar para lá das prateleiras de chicletes e garrafas que nunca se vendem, abanando-se ora num pé ora no outro pé...

não sei! sei que me lembrei de Peter... dos seus cabelos aos caracóis cor de cenoura e da cara salpicada e pontiaguda que pendia daquela testa grande.

nem teve nada a ver com a chuva miudinha que me deixou os ombros brilhantes de gotinhas no caminho entre a porta de casa e o café. não! - deixa cá ver, ... - não pode ser!...

... tenho que prometer a mim mesmo desfazer-me daquele casaco negro que ficou pendurado no bengaleiro desde aquele dia em que ele partiu.

prometi a mim mesmo não ver o que têm os bolsos e não verei.



cabanas de viriato - 2003

2005-10-11

roldana

Deodato



Lembrei-me dele hoje.


Sem perceber porquê, vieram-me à memória recordações do recanto de passeio a cheirar a mijo, entre o quintal abandonado das loiras espampanantes e a casa do Livra; das conversas pela noite fora à sombra do candeeiro que apagava a cada nove minutos para voltar a acender passados dois minutos; das beatas disparadas a piparote para o meio da rua entre discussões vazias sobre coisas que me esqueci; do halo de escarretas de cuspo criado à volta das gargalhadas soltas no chão quadriculado da noite.

o Deodato era daqueles que, ao contrário dos "do costume", só aparecia de longe a longe, aparecendo silencioso pela rua abaixo - sempre pelo meio da rua, sem carros - sozinho, de mãos nos bolsos do seu blusão da força aérea comprado por um primo misterioso nos EUA, e chegava e ficava calado a apreciar as conversas e não cuspia para o chão nem fumava. Fazia uma ou outra observação curiosa ao que se dizia, sorria para um ou para outro dos "do costume" e, como tinha chegado, partia rua acima ajeitando os ombros estofados e puídos do blusão.

Só sabíamos que ele trabalhava como porteiro de um bar de putas na rua paralela ao porto onde os navios acostavam nas noites morrinhentas.

nunca chegámos a saber em que bar de putas ele trabalhou.




caparica, outubro de 2005

constato

duas cadeiras vazias.



Lisboa - 2005

2005-10-07

relâmpago

tens-te tornado um inferno.
se hoje queres partir, amanhã deitas-te o dia todo a olhar o tecto branco, vazio só com aquele fio eléctrico que não vai dar a lado nenhum.
dizes que ficas a olhar e inventas formas caras em esgares de gritos lancinantes no mármore do chão da casa de banho quando te sentas horas a fio até não sentires os pés.
agora vens-me com essa hitória de inventar ou descobrir - não te entendo - não sei o quê que te levará daqui para outro lado onde querias mesmo estar.

não te percebo! deves andar doido.

haja paciência... desaparece de vez!

punta arenas

ainda tens o cão para arrumar na saca e deixá-lo à vizinha viciosa que - esperas - te tratará dele com o mesmo carinho com que tu tratas; ainda tens que deixar pré-pagas as contas de água, luz, electricidade, adsl e que tais; ainda tens que pedir à Olena que te vá regar os pequenos eucaliptos da sala e cortar-lhes as raízes salientes

    :: ah! Olena. que difícil é fazer-te entender que raízes são como se fossem beterrabas mas sem serem vermelhas nem grossas

  ; e ainda te falta deixares a roupa de inverno organizada para a volta, para que não te sintas perdido na confusão do choque do quotidiano; ainda te faltam as compras de última hora para cá e para lá

    :: não te esqueças dos congelados, de atafulhar o congelador para quando voltares - sabe-se lá o que te espera; não te esqueças da lista

  sobretudo não te esqueças de esquecer isto cá: não leves nada de cá!

confirmaste o aluger do apartamento de San Martín para os meses previstos? tens os documentos da caravana e lugar previsto para abandoná-la? os bilhetes dos três vôos internos? a casa em Cabo de Hornos? a volta por Chiloé? o contacto de Santiago?...

então vai!

ficarei ansioso pelo teu regresso.




comemos bem em Christiania - Copenhagen - 2005

2005-10-03

momento

x = o agora
y = o antes
z = o devir
w = o eu
u = os outros
k = o aqui
h = o acolá

ora, pegamos nestas variáveis e pomos num saco de flanela negro - daqueles que têm forro duplo, para não entrar luz nenhuma.

plano A: agitamos o saco e entornamos as variáveis numa mesa de mármore branco e ficamos a cantar-lhes uma música de embalar;
plano B: pegamos no saco cheio destas variáveis e, a meio de uma daquelas rectas da estrada para o algarve (sim, da que dantes se fazia para ir para o algarve, pois) - numa noite escura - enterramos o saco num campo daqueles que se vêem da estrada e que parecem sempre iguais;
plano C: pedimos a um amigo que tenha um barco para irmos dar uma volta - sei lá: "pá, gostava de ver a arrábida do estuário do sado... assim, tipo, de lá do fundo" - e, com um calhau de quilo atado ao gargomilo do saco, atiramo-lo para o fundo do mar;
plano D: abrimos o saco e esperamos que as variáveis voem como borboletas;
...
plano Y: pomos as variáveis, depois de termos juntado ketchup e mostarda no saco e agitado bastante, num pão e comemos pãozinho com variáveis;
plano Z: ... errr.... esqueci-me... qual era?...


sarilhos pequenos - 2005

plano E: (ficou aqui esquecido, por engano)