2005-09-29

conversa sem título

o som do telemóvel ao tocar o despertar era algo, para ele, que já fazia parte dos últimos sonhos da noite. era algo que ele já encaixava naturalmente nas cenas absurdas dos sonhos que, dizia, nunca tinha e que desapareciam com o escorrer da água salpicada de pelos da barba cortada em remoínho pelo ralo todas as manhãs. das memórias ficavam as auréolas de sebo amarelado que marcavam o humor de cada dia traçadas numa escala na borda do lavatório e que ele, em cada dia que ultrapassava, após a frescura do after-shave olhava pesada e pensativamente antes de se arrastar para dentro dos vincos do fato cinzento que o levaria porta fora, para mais um dia de outono no centro do mundo.

      -

sustem a respiração perante um bando de pombos que lhe explode aos pés, na calçada polida ao virar da esquina, e o assobiar do bater de asas dos bichos raza-lhe os ombros por todos os lados
  - o pó das asas dos pombos sempre lhe deu asco -
    e por um momento sente o estalar do milho debaixo dos pés a cada passo enquanto repara que o ramo de rosas abandonado ontem continuava de cabeça para baixo no cesto de papéis preso ao poste ferrugento e levemente inclinado por um acidente qualquer num dia qualquer
  - não interessa

. . .


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"                               "

2005-09-26

outono

é natural as folhas, no outono, caírem por si próprias



carimbo: apto!

[algum cabrão lixou as letrinhas, por isso, xau abrósio]

sabias que o facto consumado come-se ao almoço, numa mesa de toalha de plástico daquelas estampadas com motivos incompreensiveis repetidos em beije e verde azeitona, acompanhado de um fio de azeite, e, as espinhas e os ossinhos encostam-se às côdeas de cebola velha que a cozinheira tentou, armada em chico-esperta, ver se passavam despercebidos ao comensal? e que, no fim, assobia-se por entre dentes o palitar aeróbico dos fios do bacalhau e cospem-se as casquinhas do rancor para o chão onde, ou a empregada da limpeza as empurrará sem dar conta delas com a esfregona de águas castanhas, ou alguém as pisará e, talvez com sorte, as levará coladas à sola do sapato para a terra suja e cagada dos cães na berma da estrada nacional em jeito de rua suburbana?
eu não sabia.



descendo do Sítio, Nazaré - 2005

2005-09-22

fas


pendurado no seu leve sorriso sarcástico, sentava-se sempre na mesma mesa redonda de madeira escura e patinada, onde deixava repousar o café sobre o tampo de mármore branco e de onde podia olhar todos os que entravam na escuridão do café, cegos pela claridade ofuscante da rua. não reparou que, ao longo destes anos em que manteve a sua indumentária de janota extravagante, as pessoas cada vez mais o ignoravam porque cruzava sempre a perna da mesma maneira. mesmo assim, todos os dias sempre á mesma hora, puxava da caixinha dourada e olhava-se na tampa convexa e polida e, por se ver dourado e abaulado, achava que era o Sol e o Mundo girava á volta dele. não reparou é que, de dia para dia, o tecto reflectido naquela caixinha estava mais escuro.

2005-09-21

jea


januário resolveu fazer um monte de terra para poder subir nele e daí mostrar-se aos demais. cavou, cavou, cavou, e com a pá depositava a terra ao lado da cova. compactava a terra do monte de vez em quando com as costas da pá, olhando o seu monte com orgulho. de vez em quando pensava: acho que já chega! para logo a seguir cavar um pouco mais e fazer crescer o seu monte de onde se iria sentir o maior. um dia, deu por acabada a tarefa: subiu ao monte e viu que de lá se viam coisas que não estava acostumado; viu que podia ver como os outros que, mesmo não tendo monte, conseguiam ver para além.

não se lembrou é que, mesmo ao lado do seu monte tinha ficado uma cova por ele feita que tinha de profundidade tanto como o seu monte tinha de altura.

cego pelo delírio desta nova visão que não entendia, esqueceu-se que tinha vertigens e resolveu por-se de bicos de pés querendo mais ainda.

o que vale é que o buraco por ele feito era suficientemente largo para o acomodar agora, jazendo.



blaj, roménia - 2005

2005-09-20

ten


sem que saibas, às vezes ainda de ti espero que me mostres uma flor insignificante.

2005-09-16

pos


o sol pode fechar-se de vez em quando mas sei que a seguir se abre de novo! ;)

dis


lurdinhas tinha uma vaca que chia.

a lurdinhas não crescia. foi feita da mesma maneira que os manos, mas não havia meio de crescer. durante a infância nada preocupou os pais, pois pensavam em conjunto: "a miúda, pois, ainda é piquena, vejam lá!"; mas, quando entrou para a primária, os pais notaram que ela era a mais pequenita da classe: "vejam lá! a nossa lurdinhas é um amorzinho de singeleza! benzádeus!"; e a puta daquela cegueira de pais-babados tornava-os nuns imbecis que não topavam que a porra da criança irritante não havia meio de crescer! o estafermo entrou no secundário e ainda passava, sem se curvar, por baixo do gancho da maior parte dos rapazes da turma: "natércia, não achas que a nossa lurdinhas precisaria de vitaminas ou algum complemento de sais minerais?" perguntava o anormal do pai à mulher, ao que ela respondia, com aquela cara estática de sapo amarelado "não! querido. ela até come bem as gomas todas, vejam lá!";

um dia, quando a micro-alimária saiu da secundária número 2 de Ramalheiro, veio um carro e passou-lhe por cima. tadinha!... ficou só a vaca que chia inteira no chão a fazer "muuuiii... muuuiii..."

as bestas dos papás fizeram-lhe um altar junto à torneira do jardim e lá puseram a vaca que chia e todos os dias lhe dão um pontapé a ver se a puta se cala de vez.


yerevan, arménia - 2005

lat


...
- e depois, sabes? sentia todos os dias ao acordar um insuportável e latejante bater de coração na parte de cima das orelhas e isso deixava-me doido
- ehem...
- de tal modo que decidi dormir com duas almofadas, uma de cada lado, a ver se isto passava. o que aconteceu foi que, deixei de ouvir o despertador e passei a chegar sempre atrazado ao trabalho ou, quando chegava a horas, levava sempre a barba por fazer e isso causava má impressão nos clientes ao balcão
- hmmm...
- até que um dia, sem eu esperar, esse latejar deixou de acontecer. não sei bem porquê, mas senti-me esquisito a partir desse dia. foi como se alguém me faltasse na vida. passei a andar triste e as coisas deixaram de funcionar em sintonia para mim: por exemplo, o chá da manhã arrefecia demasiado depressa, o duche encravava a meio, o cão passou a mijar antes de saírmos da porta do prédio, ...
- queres mais uma cerveja? peço?...
- ... a mulher a dias passou a vir em dias que eu não a esperava, o leitor de dvds passou a encravar dia sim dia não.
- psst! menina... são mais duas! sim, duas!
- sabes que mais?! vou mudar de atitude!
- hm, fazes bem
- só que não consigo! já tentei.
- é?
- sim! já tentei fazer muita força quando acordo; fechar os olhos com muita força até me doerem as órbitas; apertar o nariz entre os dedos até o ranho me sair pela garganta; cerrar os lábios até ficarem duros como couro e nada!... não consigo que o coração me passe para as orelhas de novo
...



sibiu, roménia - 2005

2005-09-15

amb


sem que soubesses, esgadanhei-te o corpo até que sangrasses horror e, por mais que quisesses evitar, não o conseguias porque o fundo para onde te lançaste nessa fuga estúpida era tão frio, tão sombrio e medonho, que tu me exigias mais do que me era possível dar. de mim não deste conta nem sentiste nada porque, mesmo assim, foi míngua perante o que de mim dilaceravas. que restou, então, dos sonhos que, em sapatadas brutais, moldaste nessa tua mesquinha história? não sabes, claro.
para quê os prantos de almíscar e verbena que me pintaste à força de cantos que não eram mais que palíndromos sem nexo e vazios? para quê o que me roubaste se eu te podia dar sem hesitação?

não te queixes do que de ti resta e do patético recanto da tua alma.

parafuso

hoje : : : sorriso cá dentro




havana: leram-me as conchas: 2005

2005-09-13

luzinha

pousei o último caixote de cartão na sala dantes vazia a que me acostumei durante anos e sentei-me na poltrona adamascada que a tia susana um dia mandou entregar à minha porta: "ouve, filho! como gostaste tanto deste cadeirão naquele verão que cá vieste, tens que ficar com ele, ouviste?".

o cheiro a antigo das paredes de papel estampado a folhas esbatidas já tinha entrado em mim, no quotidiano, desde que deixei o - agora distante - campo e me afundei na cidade: já tinha por adquirido o refúgio sombrio e silencioso da "general roçadas" e da demorada nesga sobre o mosaico de telhados despejado sobre o tejo; o tilintar das chaves ao abrir a pesada porta já me relaxava ao fim do dia e me anunciava o imediato torpor a que me entregaria sem que o tempo contasse; a frescura dos mármores beijes nas tardes quentes de verão eram o suave choque que me puxava da cidade para aquele meu recanto agradavelmente sepulcral.

agora, enquanto te viro costas, leio no sarrabisco de um "73" a fúria com que despejei os dias que já foram.

não sei se conseguirei ver, de agora em diante, o tejo, por cima daquele mosaico de telhados.



memórias

2005-09-09

favas dos muros

Blandina

... Blan di na ...

era o nome de uma empregada da cantina daqui da empresa. a mulher era simples e faladora. muito faladora mesmo. pedia-lhe um "bitoque" e ela pegava nas batatas fritas e contava-me a vida da cadela lá da fazenda, ajeitava o ovo-a-cavalo por cima do bife e discorria sobre o estágio do sobrinho Sandro no Alfeite, colhia duas colheradas de arroz branco e, no tempo que demorava a atirá-las para o prato, junto ao bife nervoso, detalhava uma tarde de pormenores sórdidos sobre a algália da tia Odete. o impressionante é que a Blandina conseguia contar três ou quatro histórias ao mesmo tempo - ás vezes para duas pessoas diferentes - sem sobrepor frases, misturar semânticas ou misturar o bacalhau de um com o estrogonófe do outro.

durou dois anos este meu encontro diário com a Blandina. um dia, ela foi despedida e substituiram-na por uma senhora que, ao fim de três anos de encontros diários, ainda nem lhe sei o nome.

- "o que vai ser hoje?"
- "bitoque"
- "..."

foi o que mais consegui dela, ao fim destes três anos:

tragam-me a Blandina de volta, por favor!!!



palmela, festa das vindimas - 2005

2005-09-08

o xis de giz

ainda há um par de anos tinha pesadelos recorrentes sobre Luanda, passados mais de dez anos sobre a minha última estadia por lá.

quase sempre nunca me lembro do que sonho - dizem que sonho mas eu acho que não. bem... não interessa! - mas, talvez por me ter impressionado tanto com meia dúzia de cenas que me ficaram gravadas, estes pesadelos ficaram para sempre na minha memória
    :: se calhar empurraram alguns filmes e pessoas que não interessam para fora da minha memória ::
        e, volta e meia, sobem-me á cabeça aqueles putos quase despidos a brincar em sarjetas esventradas feitas piscinas de água cinzenta e peçonhenta, na Samba, ou dos mutilados de guerra que vagarosamente nos apareciam sussurrantes do escuro da noite quando saíamos da cantina, ou do stress de viagens tardias em tempo de recolher obrigatório sem pararmos nos semáforos, escolhendo ruas menos propícias a brigadas de polícias que poderiam não ser polícias ou poderiam ser polícias emborrachados, ou ainda das cenas de pancadaria pela disputa do melhor bocado de lixo do hotel naquele dia em que saímos para o trabalho e escolhemos a rua de trás, ou daquela volta indescritível que dei com o antónio pelas veredas paupérrimas do musseque, quando procurámos as antigas instalações da fábrica do pai dele.

lembro-me que, nos pesadelos que tinha, havia muito mais que isto e a cor do ar era de um laranja acastanhado, a fugir para o dourado
    :: não sei que significado teria esta cor ::
        e sei que o pesadelo fechava sempre com a cruz de giz feita na mala, depois de vistoriada no aeroporto, quando voltava.



havana - 2005

the M-gap

sofro de uma falta de memória que me preocupa.
não sei se é por preguiça, se é por senilidade precoce, mas o certo é que há coisas que não guardo na memória... pensando bem, acho mesmo que é por preguiça: melhor dizendo, é por um misto de falta de interesse e preguiça.

não me lembro da maior parte dos pormenores de filmes que vi na semana passada e praticamente nada de filmes que vi há mais de um mês :: tem uma grande vantagem: revejo-os como se fosse a primeira vez vezes sem conta;
não me lembro de fotografias que não me chamam à atenção e não têm em mim um impacto bestial :: serve-me como ajuda: as que me lembro são as que realmente são, para mim, consideradas fantásticas ou execráveis;
não me lembro de pessoas que não me dizem nada :: vantagem: expurgo automaticamente quem não me interessa e poupo recursos para o que me interessa;

isto tudo para dizer o quê?
que não me lembro se já coloquei aqui esta foto e para me desculpar de inserções de fotos repetidas no futuro deste blog: para mim, elas serão, por um lado, como se as inserisse aqui pela primeira vez, por outro, [contraditoriamente] são fotos minhas que realmente gosto. e isso - confesso - é um egoísmo que me dou ao luxo.



Setúbal - Comenda :: 2004

2005-09-07

facção azul

recebia por dia cerca de duzentas mensagens que me chagavam sem que eu o tivesse pedido a ninguém. não percebia porque carga d'água me eram endereçadas. resolvi investigar.

naquele sábado saí pela manhã, bem cedo. fiz como o faço sempre, levantando-me devagarinho, sem abanar o colchão para que ela continuasse a dormir e só acordasse ao fim do dia, quando eu chegasse. confesso que me custou desfazer as pastilhas no copo de água que ela mantém na mesa de cabeceira: custou-me porque sabia que este tipo de coisas não se fazem, principalmente a quem queremos bem; que se lixe: o mal destas mensagens atormentava-me já há meses e tinha que fazer algo, caso contrário corria o risco do hospício do sotavento.
do jarrão de esmalte, entornei devagar a água para o lavatório de pés que ela sempre teimou ter no quarto :: podíamos bem tomar banho sempre no rio - dizia-lhe eu, mas ela insistia que as águas eram "nojentas" e eu só tinha que acreditar [realmente, há anos que habia aquela auréola no cais] :: e lavei-me com cuidado para evitar que a água caísse com ruido.

vesti-me com a túnica que por ali se usava e saí.

corri as veredas do bosque por onde passam sempre os emissores com seus carrinhos de três rodas, seguindo os rastos quase apagados pela noite :: tinha tido sorte - não houve quase vento esta noite :: e subi e desci o que tinha que ser subido e descido. entrei em covas e saí por tampas sempre abertas :: de metal ferrujento :: que iam dar às piscinas de fios que eu já tinha estudado na escola.

gastei o dia todo nisto sem conclusão alguma e quando cheguei a casa, estafado, só a pude ver deitada ainda, a dormir.

desalentado,
sentei-me à mesa iluminada pela luz quase apagada e azul da janela e comecei a esmigalhar outro comprimido. o copo estava quase vazio na mesa de cabebceia.

2005-09-06

diamantina

as núvens carregadas caíram sobre aquela tarde como nunca ninguém tinha memória. o ar começou a cheirar a fios eléctricos queimados sem se aperceber de onde vinha esse cheiro incomodativo. o vento começou, a pouco e pouco, a rondar para direcções de onde nunca tinha sobrado e levantou papéis amarelecidos pelo sol e sacos de plástico esfarrapados pelo tempo, criando remoinhos tolos na praceta em frente à igreja. a poeira levantada entretanto queimou-me os olhos e fiquei sem nada ver: restou-me o ouvir de gritos distantes sufocados pelo rasgar da ventania nas árvores e os passos aflitos de quem rasou aquela minha imobilidade naquela tarde em que o pó tomou conta da pedra.



copenhagen, 2005