as memórias aparecem e desaparecem sem controlo. são clarões fugazes:
é das memórias mais perseverantes que mantenho desde pequeno. no entanto é-me tão difícil exprimi-la e tão difícil partilha-la, não porque seja íntima ou secreta como as memórias que se guardam só para nós por serem demasiado abstractas ou comprometedoras, mas porque é tão singular, real e palpável que qualquer tentativa de mostrá-la é, à partida, frustrada pela complexidade de exprimi-la.
o casarão da minha avó materna foi construído nos finais do século dezanove à imagem da casa de família no Sul de Inglaterra, de onde zarparam, escorraçados por questiúnculas familiares, tetravós que só conheço por fotografias sépia e elípticas das quais não sei o paradeiro actual e que, atracando na costa portuguesa, a construíram como um exorcismo secreto e expurgante de culpas longínquas como apoio esperançoso à adaptação das novas terras de família neste país de gente simples, aos olhos dos preconceitos ingleses da altura. foram, assim, construindo um pequeno enclave, uma ilha em terra firme, à imagem da Cornualha distante e só acessível, então, por cartas em cursivo inglês fechadas com a saudade carmim do lacre fumegante que as lançava esperançosas de resposta breve rumo à aldeia sobranceira aos restos do Mar do Norte, onde ele se perde no Atlântico.
muita da minha infância foi passada nesse casarão de planta quadrada, enorme, de um rosado invulgar onde, desde a cave da criadagem até ao sótão inexpugnável criei sonhos recursivos só possíveis nos longos dias de verão quando, depois da praia, sobravam tardes longas entre brincadeiras no jardim e jogos de bola com os filhos dos pescadores que o meu avô teimava em não querer como meus convidados no quintal.
o sótão ficou sempre inexpugnável mas, o barulho das ripas de madeira do corrimão daquelas escadas ficaram em mim como um som único e inexplicável que, por mais que queira, não consigo partilhar com ninguém.

[ex-votos na ermida de Nossa Senhora d'Aires, Viana do Alentejo - 2005]