2005-07-29

via de serviço

hoje: 08:22 GMT+2

paralela à A30, há uma via de serviço.

não tem início nem fim.

foi feita para quem passa por ela depressa e se serve dela para chegar a algum sítio. talvez por isso não tem passeio. é alcatrão, berma de terra e campo de erva seca.
é feia.
há terra calcada por rodados, ervas secas e desgrenhadas, restos de betão seco lançado num dia qualquer por um camião; encostadas á berma levadas pelo vento ou pelas chuvadas, garrafas mijadas, tetras-páques esmagados, plásticos baços do tempo e do sol, embalagens vazias de fast-food.
cheira ao doce e enjoativo lagar de azeite.
há, nesta via de serviço, a cada passo que se dá, a sensação eminente de encontrar um cão ou um gato morto encostado à berma, de dentes arreganhados por um último esgar.

hoje: 08:37 GMT+2
1,3 km depois.



[paio pires - 2005]

2005-07-28

"viajar"

GMT+1
prev :: 19:20
real :: 19:37
recosto-me: auscultadores postos com smashing pumpkins: evito o sono para estar alerta à chamada: dou pelos asteriscos que piscam no painel que diz

NI 1800 LIS **
_______VLC **

rotina de veterania: é bus: deixar encher o bus e ir no momento para escolher a porta dianteira direita que é a que em 95,3% das vezes fica mais perto das escadas do Saab 2000, mesmo ao pé da turbo-hélice [gosto de ser dos primeiros a entrar na nave]

rotina de prática: durante a viagem do bus: aproveitar e acertar a hora para GMT+2 antes de desligar os telemoveis: continuar com os auscultadores porque sabe bem

GMT+1
prev :: 19:40
real :: 19:53
guardar os auscultadores antes da hospedeira mo dizer [hoje apeteceu-me]: aproveitar o lugar mais amplo [fila 10, cadeira A :: a preferida] da saída de emergência e recostar-me sem baixar as costas do banco [sabe bem por o pé em cima do socalco por baixo da janela :: daí ser o preferido]
começo a adormecer [durmo sempre que vôo]: desperto com o forte abanão e inclinação do Saab 2000 e com o grito de alguns passageiros: sinto-me pequenino por segundos para logo adormecer [rotina de veterania]

GMT+1,qualquercoisa
prev :: n/a
real :: 20:49
comida de avião [que remédio]: olhar para passaeiros e pensar [que bimbo: que parolo: que boazona: coitado: que bimbo]: banco recostado: auscultadores: dormir

GMT+2
prev :: 22:20
real :: 22:17
bocejos falsos para abrir os ouvidos: recolher auscultadores: pensar [mochila]: medir "passageiros antes" e "passgeiros depois": não bater com a cabeça ao levantar-me: espreguiçar: sair [lembrar-me de não lixar o cotovelo no corrimão das escadas do Saab 2000, como da última vez que até fez sangue] :: bus, não há pressa: a mala foi despachada: deixar os apressados andar

GMT+2
daí prá frente: (**) hotel: quarto: gente não escolhida: trabalho: temas de conversa não escolhidos: falar de trabalho: misturar castellano-francês-inglês: pensar [e o fim de semana que me foderam]: comer raro: escritório até às tantas: [voltar várias vezes ao ponto (**)]

... shiu!



[Saab 2000]

aquelas escadas

as memórias aparecem e desaparecem sem controlo. são clarões fugazes:

é das memórias mais perseverantes que mantenho desde pequeno. no entanto é-me tão difícil exprimi-la e tão difícil partilha-la, não porque seja íntima ou secreta como as memórias que se guardam só para nós por serem demasiado abstractas ou comprometedoras, mas porque é tão singular, real e palpável que qualquer tentativa de mostrá-la é, à partida, frustrada pela complexidade de exprimi-la.

o casarão da minha avó materna foi construído nos finais do século dezanove à imagem da casa de família no Sul de Inglaterra, de onde zarparam, escorraçados por questiúnculas familiares, tetravós que só conheço por fotografias sépia e elípticas das quais não sei o paradeiro actual e que, atracando na costa portuguesa, a construíram como um exorcismo secreto e expurgante de culpas longínquas como apoio esperançoso à adaptação das novas terras de família neste país de gente simples, aos olhos dos preconceitos ingleses da altura. foram, assim, construindo um pequeno enclave, uma ilha em terra firme, à imagem da Cornualha distante e só acessível, então, por cartas em cursivo inglês fechadas com a saudade carmim do lacre fumegante que as lançava esperançosas de resposta breve rumo à aldeia sobranceira aos restos do Mar do Norte, onde ele se perde no Atlântico.

muita da minha infância foi passada nesse casarão de planta quadrada, enorme, de um rosado invulgar onde, desde a cave da criadagem até ao sótão inexpugnável criei sonhos recursivos só possíveis nos longos dias de verão quando, depois da praia, sobravam tardes longas entre brincadeiras no jardim e jogos de bola com os filhos dos pescadores que o meu avô teimava em não querer como meus convidados no quintal.

o sótão ficou sempre inexpugnável mas, o barulho das ripas de madeira do corrimão daquelas escadas ficaram em mim como um som único e inexplicável que, por mais que queira, não consigo partilhar com ninguém.




[ex-votos na ermida de Nossa Senhora d'Aires, Viana do Alentejo - 2005]

2005-07-27

sapo

já a avó era pó, cinza, as vinhas definhado vezes sem conta, perdera-se a conta - também - das vezes que os musgos invernosos do tanque tinham sido escovados pelo vizinho Saul e a palavra "california" continuava um eco ainda vivo.

. . . . .

teimava em ter sempre vazio o alguidar que sua mãe lhe deixara quando se despediu dele e lhe disse "volto em breve, Bitro! volto em breve... a tua avó irá cuidar bem de ti", só que se deve ter esquecido de completar a breve frase com um "cuida tu mas é dela".

desde então, os dias eram passados invariavelmente entre a porta da frente, que saía de uma cozinha escura e fumarenta para um alpendre coberto precariamente por lusalite já gasta pelo tempo, e a porta de trás - nunca entendi porque é que a "porta de trás" dava para a frente da casa - que dava abruptamente para a estradeca de terra batida, esbranquiçada, poeirenta, que não ia dar a lado nenhum.

a lado nenhum ia dar a vida dele e do alguidar - vazio - que não conseguia encarar desde aquele dia que a mãe lhe disse "e não fiques por aí sem fazer nada. trata de ganhar a vida como o teu pai fez" e a lado nenhum conseguia levar o vazio de uma rotina que não tinha escolhido naquela aldeia sem alma onde o vento chiava nas oliveiras cinzentas e o pó rodopiava nos cantos dos muros caiados e esgravatados por histórias há muito esquecidas.

e a nada chegava em cada dia que acordava e de imediato olhava para o verde forte e luminoso do alguidar - sempre vazio - e se recordava de uma lágrima escorrendo pela voz trémula que lhe dizia "volto em breve, verás. mal encontre o teu pai, volto".

sinais

hoje reparei que, na última carta de memória da minha 10D que trouxe da viagem à Geórgia e Arménia, tinha esta "coisa" como última frame.

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entendo-o como um "sinal" (ponto)



[a "coisa"]

2005-07-26

white noise

[#35]
olho para trás, para a frame anterior a esta em que agora estaco e não ouço nada; não vejo nada; nada sinto...

[#36]
... white noise ...

[#37]
(salto para outra dimensão, de certeza)

. . . . . . . .

"se és previsível?"
- pergunto-lhe respondendo, tentando a inevitavel fuga à pergunta e tentando, eu, não ser previsível na resposta;
"só os doidos varridos não são previsíveis"
- disse-lhe com um ar convincente de uma certeza inventada no momento;

fez-me uma cara de quem não se convenceu de coisa nenhuma;

"não, não és ... é engraçado como as pessoas se preocupam em não serem previsíveis... eu incluido"
- disse-lhe, então, tentando apaziguar uns leves laivos de irritação nas sobrancelhas;

"é que eu não me preocupo mas esforço-me para não o ser"
- disse-me

. . . . . . . .

saber

- percebes agora porque é que não te quis mostrar aquela flor, naquela tarde que ficámos horas sentados na sombra dos plátanos do banco do jardim, junto aquela casa abandonada, com os vidros partidos, de onde vinha o barulho solto do vento nas chapas de zinco? - percebes agora porque é que eu não te sorri quando me disseste "mostra-te" e passei, a partir daí, a olhar através de ti como se nada fosses e não sentir quando me olhas mesmo que me tentes perfurar com o olhar? - percebes agora porque é que demorei uma eternidade a largar a tua mão quando tentaste, com a ponta do teu chinelo florido, traçar gatafunhos que, embora me dissesses que significavam a vida para ti, para mim nada diziam? -percebes (ainda) porque vagueei o resto daquele dia pelos caminhos estreitos e cheios do aroma do buxo fresco, criando um labirinto atrás de mim, na esperança de nunca mais me conseguires alcançar?

sei que não o percebes - aliás, nunca percebem - embora mo digas que o entendes.

já não sei é se percebes porque é que deixei, tão visivel, a ponta desse labirinto mesmo junto desses teus gatafunhos sem jeito traçados no chão, onde se adivinhavam palavras proíbidas.

2005-07-25

agulha

já escrevi e apaguei várias vezes este post: nada mais me saiu que frases chavão-feito de La Palisse

estaco de novo perante várias direcções a seguir :: já sei: isto é cíclico :: é fruto do cansaço e descontentamento em relação ao gerado :: há que dar uma pancada seca e metálica na alavanca da agulha e mudar

... adiante.



Yerevan, Arménia - 2005

2005-07-22

5 horas e meia

depois do ter estado contigo - que nada me dizias que eu sentisse; que nada me fazias sentir por mais que dissesses - fechei vagarosamente a porta atrás de mim e reparei que o feixe quente de luz amarelada que por ela passava estreitava pouco a pouco num sussurante e longo torpor à medida que me afastava pelo longo corredor e a madeira rangia debaixo de cada passo pesado.

subi vagarosamente as escadas adivinhando os degraus na escuridão silenciosa e a casa passo lento senti-te cada vez mais longe, sentada, fechada naquela sala de paredes escuras do negrume de anos de lareiras aconchegantes de invernos cinzentos e gelados.

afastei-me, levando-te comigo numa pesada solidão que me arrasou por completo deixando-me preso em pensamentos parados e sem cor



mestia, república da geórgia - 2005

2005-07-21

o calor de uma casa

por várias vezes me senti algo incomodado por, ao entrar no quintal de algumas casas que visitei, me trazerem quase de imediato, de dentro de casa, uma cadeira de madeira e ma oferecerem, pousando-a no terreiro seco e cru, à sombra de uma possível árvore ou muro. incomodado por receber tanta simpatia e confrontarem-me com este gesto que me é tão estranho; incomodado por me sentir o "visitante estrangeiro com quem devemos fazer cerimónia".

com um sorriso sincero me diziam "tome! sente-se aqui" (pela tradução que me faziam)

- sim! sinceridade e simpatia

muitas das vezes, a única cadeira que traziam era para "o estrangeiro", eu, não trazendo cadeira nenhuma quer para a guia e companheira de viagem, quer para o condutor.

sentava-me por cerimónia e por agradecimento do acto de simpatia e, confesso, algumas vezes por cansaço.

. . . . .

a gente de Svaneti é assim: de coração aberto.



em Svaneti, República da Geórgia - 2005
[o livro era a "Pipi das meias altas", na versão em georgiano]

2005-07-20

svaneti, gente de svaneti

uma hora e meia de 4x4 por estradas que, em certos pontos cortavam a respiração a quem olhasse pela janela para baixo, para o rio que corria lá no fundo dos duzentos metros a pique; uma hora e meia de zigue-zagues pela montanha, subindo, subindo até à altitude das neves perpétuas, para logo descermos quase até ao rio revoltoso e cinzento e pararmos numa aldeia perdida num vale do Cáucaso.

recebidos com alguma parcimónia [se é que assim se pode chamar ao receio de encarar estranhos "da cidade"] que, ao fim de uns minutos de conversa se transforma numa simpatia quase efusiva, e que culmina num partilhar de mesa da humilde sala de visitas daquela casa pelintra em que não faltou nada para uns visitantes tão fugazes.

comemos khachapuri feito na altura, bebemos vinho da terra, brindou-se com chacha (vodka caseiro feito com pão fermentado) e rimo-nos e espantámo-nos de histórias contadas.



em Svaneti, República da Geórgia - 2005

vinho, acordeão e vinho

depois de jantar, e ter brindado de golada uma meia dúzia de copos de vinho adocicado da região, ouço a musica de acordeão que vinha das trazeiras da casa. há cerca de quatro horas que não havia electricidade e as ruas estavam escuras como breu. resolvi ir com Boris e o puto que arranhava umas oito palavras de inglês ver o que se passava. monto um HP5, puxo-o a 1600 asa e dirigimo-nos com a luz da lanterna até ao grupo de onde vinha a musiqueta.

um jipe russo apontava os farois para uma mesa onde um gorducho de camisola às riscas tocava acordeão para mais uns cinco com respectivos copos. á chegada, anunciam-me como de "Portugalia". Puxaram uma cadeira para mim, depois de me cumprimentarem efusivamente entre um palavreado ininteligível de onde só compreendia "Figo" e "Portugália", e convidaram-me a sentar.

Olhei para a cadeira como se esta fosse "o lugar do morto", Pensei: no que me vim meter!... estou feito!... Sou cobaia desgraçada!...

Fizeram-se dois ou três brindes em que o gorducho me falava, entre predigotos, algo que eu não entendia pêva e deram-me um copo enorme atafulhado de vinho para que eu bebesse em honra do mais idoso da mesa.

Tocou-se música de acordeão e alguns homens dançaram em frente às luzes do jipe.

pensei, ao rever as imagens:... Kusturica tem o trabalho facilitado.



em Kutaisi, República da Geórgia - 2005

2005-07-15

gente de Svaneti

à chegada, fomos recebidos pela família do prospector de ouro.
trouxeram-me uma cadeira de dentro de casa e colocaram-na no meio do pátio de terra, disponível para mim.
pedimos para chamarem o prospector e, enquanto isso, fui fotografando os miúdos que se tinham aperaltado para o evento.



numa aldeia em Svaneti, República da Geórgia - 2005