2008-05-08

o império do sentido

o coitado teve um acidente.
bateu com os cornos num poste, daqueles postes que aparecem sempre na frente dos carros desgovernados *puft!* num momento, paisagem desolada e vazia de linha do horizonte cortante e recta *puft!* no segundo seguinte, a porra de um poste mesmo espetado - ainda vibrava, o raio do pau! - naquela saída de curva - também, quem se lembra de fazer uma curva num sítio daqueles, plano, monótono - mesmo à ilharga da berma de cascalho, no sítio mais improvável do planeta para estar um poste? e o que me lixa é que o raio do poste tinha fios ligados e tudo. não percebi para onde escorriam os fios, mas também não interessa.
o coitado teve um acidente.
debaixo do capot retorcido fumegava um vapor *pfff!* quente e a cheirar a água fervida em potes de barro, que *pfff!* ondulava ao vento inóspito e perdido naquela planície ocre e desolada. e dentro do carro jazia o coitado - que teve um acidente - debruçado no volante, cornadura rachada, braços caídos, costas curvadas, inerte como um tronco de árvore abandonado pela secura da morte naquele - ou noutro - deserto.
o coitado teve um acidente.
olhem... foi a única maneira de ter cuspido a porra da cassete onde tinha gravadas as ideias de casmurro que o atormentavam há anos, embora ele não o assumisse. graças aos deuses, o para-brisas escacou-se *crash!* ao primeiro impacto e abriu uma bendita portinha cintilante para, naquele sacão, a cassete cuspida *ptiu!* ser lançada em alta velocidade, saída daquela cornamenta teimosa e, num acto de mágica divina, desenrolar-se, espalhando a fita magnética pelo chão, estatelada e presa ao vento, pelo cascalho ainda quente do sol do meio dia.
o coitado teve um acidente.

paz à sua alma.


quiebra hachas, cuba - 2008

2008-05-05

grão zero.

estica o braço para baixo, ao longo do corpo e mantém-te imóvel. traça uma linha entre a tua palma da mão direita e o chão. isso!, pode ser mesmo com lápis número 1. agora, continuando a manter-te imóvel, coloca-te em bicos de pés por uns segundos. sente - ou tenta sentir - a vibração que te é transmitida pela linha, agora esticada. sentes? não?... então, mantendo a linha sem a partir, dá um passo atrás, um pequeno passo, lentamente. sentes, com este movimento, a tensão que essa linha te faz, verdade? que sentes, além da tensão da linha na palma da mão? ... isso! sentiste?!... é a Terra.

pois olha: os peixes sentem quase o mesmo naquele momento em que o anzol se lhes crava nas beiças, só que é diferente.


havana, 2008

2008-04-18

ib 6621 ok

há os que ficam, os que vão, e os que vão connosco.
e esses, voltam connosco.



costa da caparica, 2003

2008-04-09

pente classe A

não se percebia a ponta de um corno do que Madalena dizia, tal nem era a choradeira que vomitava, os moncos que sorvia e a baba que escorria. por entre soluços compulsivos só se conseguia entender "... cru-uz", "... mas ele...", "... protesto!", "... nã-ão há dir-eito".
naquele cículo que a circulava, olhámo-nos olhos em nucas, com ar de parvos sem perceber patavina do que ela queria dizer. encolhemos os ombros uns para cima, outros para baixo, conforme podíamos e, quase em cânone, voltávamos a olhar, bestas parvas, a dar-lhe importância, quando tínhamos mais que fazer.
- diz lá que foi, Madalena! - perguntei-lhe, mostrando já pouca paciência para a aturar.
- "... cru-uz", "... nã-ão há dir-eito", "...e-ele!... e logo ele!"
e pronto! a puta não saía desta lamúria indecifrável. a verdade é que, a pouco e pouco, aquela multidãozeca que se tinha formado no terreiro empoeirado junto às muralhas se ia destroçando, cada um para seu lado, ajeitando ora as túnicas, ora as opas, até que, quando dei por mim, estava sozinho, ali, em frente aquela mastronça de olhos inchados e curvada de tanta choradeira, e eu sem saber que fazer.
virei-lhe costas, desistindo dela, quando dei por um encapuçado que se aproximava, a passo apressado: Barrabás? - pensei - não pode ser! ainda agora, este gajo estava agrilhoado e já está... espera lá... quer dizer que!... quer dizer que tomaram o J pelo Barrabás?!... afinal foi o J que?!...


alcochete - 2008

2008-03-28

o R que faltava na sopa

manuel tinha nascido inclinado. sim, quando digo inclinado é porque é mesmo inclinado. inclinado para a frente. estão a imaginar a torre de pisa?, pois então é assim mesmo, só que para a frente, não como a torre de pisa que é inclinada para o lado. conhecera valéria, um dia, numa festa em plano inclinado. valéria tinha também nascido inclinada, só que para trás. sim, mesmo inclinada tal qual manuel ou a torre de pisa, mas não para a frente como manuel nem para o lado como a torre de piza.
aquela vida conjugal que se supunha vir a ser complicada, não o foi; pior teria sido se ambos tivessem nascido inclinados para a frente.


círios dos marítimos, alcochete - 2008

2008-03-24

com molho, a vida vai

aqui há tempos encontrei o teófilo sentado num banco de jardim, ali ao sol de inverno do príncipe real, meio na sombra, meio no sol, com as pernas atravessadas por uma árvore que entretanto caíra. dava nozes aos velhos e velhas que pachorrentamente passavam para cá e para lá. de cada noz, sacudia os punhos alvos da camisa matrimonial de seu pai, que empunhava com orgulho colegial, dava dois urros, abanava a cabeça e atirava um punhado de nozes o mais longe possível, para fazer com que os velhos, perante a irresistível tentação das sumarentas sementes, tropeçassem num descuido e se estatelassem lá em baixo, na bica, preferencialmente quando um eléctrico fosse a passar.
fingi que não o vi.
nunca gostei dele.
o que vale é que ele está quase a morrer.


chiang rai, tailândia, 2007

2008-03-05

semáforo deus

o atravessar do éter foi rápido. o feixe energético lançado desde Umar-K32 estava bem afinado e apontado ás coordenadas terrestres confrontadas em quatrocentas camadas redundantes de auto-controlo binárias. assim, foi só esperar o momento certo para a proceder ao implante. desde alfa-300-A que o método de implante era infalível, segundo o Grande Exposto. os cálculos já se tinham tornado rotineiros e a célula de hiper-paridade de cálculo era considerada infalível. o robot molecular accionaria o disparo no momento certo. o feixe de abertura do espaço seria activado um micro-alfox antes do envio, para logo ser desactivado um micro-alfox depois, não deixando margem para entrada de v-ermi, g-ermi, hal-f ou mesmo micro cosmos mais passivos, como os hal-b ou pax-1.

tudo correu bem:

a margem de dimensão terrestre era de cerca de um milhão e trezentos mil alfox - segundo a noção de "tempo": "meia hora". havia só que acertar na aura local do novo ser, o que, segundo o clarão de núcleo de controlo local, foi feito: implante efectuado com sucesso, sentimos nós. a confirmação chegou-nos três alfox depois, em "imagem guiada" emitida pelo agente no local, a que os terrestres chamam "parteira": várias dimensões do espasmo do novo ser, resultante da entrada do implante enviado com sucesso, espasmo esse a que os terrestres chamam "choro".

missão cumprida!


arcozelo, 2008

2008-03-03

o busilis do bisturi

- havia de ser possível escrever ao contrário
- hã? escrever de trás para a frente?
- não, como te hei-de dizer...
- ... mad isso é possível, hoje em dia, com os computadores.
- não, não! eu queria dizer,... deixa cá ver como te hei-de dizer... olha, assim, como se te enganasses e escrevesses para trás, entendes?
- hmmm... não, não entendo.
- pá, como se a esferográfica engolisse a tinta.
- mas que parvoíce!
- é nada. era bom. era como se voltasses atrás no que te tinhas enganado ou escrito. como se as tuas ideias que escreveste desaparecessem, como se tu tivesses desistido do que tinhas pensado e escrito e, dessa maneira, voltasse tudo atrás, mas tu continuasses a viver pelo caminho que ias, mas como se, tanto a escrita, tanto as ideias dessa escrita tivessem nunca existido.
- estás doido?! isso tem algum jeito? francamente, já estou farto de te aturar com estas tuas manias. tens cada uma!
- olha, por exemplo, aquela carta que te escrevi, quando estavas no exílio?, tinha sido uma bela carta para eu aplicar a escrita ao contrário.
- sabes a verdade? é que, já não há quem te entenda...
- eu sei... eu sei...


mixões da serra, 2006