o império do sentido
o coitado teve um acidente.
bateu com os cornos num poste, daqueles postes que aparecem sempre na frente dos carros desgovernados *puft!* num momento, paisagem desolada e vazia de linha do horizonte cortante e recta *puft!* no segundo seguinte, a porra de um poste mesmo espetado - ainda vibrava, o raio do pau! - naquela saída de curva - também, quem se lembra de fazer uma curva num sítio daqueles, plano, monótono - mesmo à ilharga da berma de cascalho, no sítio mais improvável do planeta para estar um poste? e o que me lixa é que o raio do poste tinha fios ligados e tudo. não percebi para onde escorriam os fios, mas também não interessa.
o coitado teve um acidente.
debaixo do capot retorcido fumegava um vapor *pfff!* quente e a cheirar a água fervida em potes de barro, que *pfff!* ondulava ao vento inóspito e perdido naquela planície ocre e desolada. e dentro do carro jazia o coitado - que teve um acidente - debruçado no volante, cornadura rachada, braços caídos, costas curvadas, inerte como um tronco de árvore abandonado pela secura da morte naquele - ou noutro - deserto.
o coitado teve um acidente.
olhem... foi a única maneira de ter cuspido a porra da cassete onde tinha gravadas as ideias de casmurro que o atormentavam há anos, embora ele não o assumisse. graças aos deuses, o para-brisas escacou-se *crash!* ao primeiro impacto e abriu uma bendita portinha cintilante para, naquele sacão, a cassete cuspida *ptiu!* ser lançada em alta velocidade, saída daquela cornamenta teimosa e, num acto de mágica divina, desenrolar-se, espalhando a fita magnética pelo chão, estatelada e presa ao vento, pelo cascalho ainda quente do sol do meio dia.
o coitado teve um acidente.
paz à sua alma.

quiebra hachas, cuba - 2008
bateu com os cornos num poste, daqueles postes que aparecem sempre na frente dos carros desgovernados *puft!* num momento, paisagem desolada e vazia de linha do horizonte cortante e recta *puft!* no segundo seguinte, a porra de um poste mesmo espetado - ainda vibrava, o raio do pau! - naquela saída de curva - também, quem se lembra de fazer uma curva num sítio daqueles, plano, monótono - mesmo à ilharga da berma de cascalho, no sítio mais improvável do planeta para estar um poste? e o que me lixa é que o raio do poste tinha fios ligados e tudo. não percebi para onde escorriam os fios, mas também não interessa.
o coitado teve um acidente.
debaixo do capot retorcido fumegava um vapor *pfff!* quente e a cheirar a água fervida em potes de barro, que *pfff!* ondulava ao vento inóspito e perdido naquela planície ocre e desolada. e dentro do carro jazia o coitado - que teve um acidente - debruçado no volante, cornadura rachada, braços caídos, costas curvadas, inerte como um tronco de árvore abandonado pela secura da morte naquele - ou noutro - deserto.
o coitado teve um acidente.
olhem... foi a única maneira de ter cuspido a porra da cassete onde tinha gravadas as ideias de casmurro que o atormentavam há anos, embora ele não o assumisse. graças aos deuses, o para-brisas escacou-se *crash!* ao primeiro impacto e abriu uma bendita portinha cintilante para, naquele sacão, a cassete cuspida *ptiu!* ser lançada em alta velocidade, saída daquela cornamenta teimosa e, num acto de mágica divina, desenrolar-se, espalhando a fita magnética pelo chão, estatelada e presa ao vento, pelo cascalho ainda quente do sol do meio dia.
o coitado teve um acidente.
paz à sua alma.

quiebra hachas, cuba - 2008







